Crítica do Fenata: Quem és tu, mulher?

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Os alunos do curso de Letras da UEPG estão preparando textos de crítica sobre os espetáculos da 47ª edição do Festival Nacional de Teatro (Fenata). As críticas são orientadas e revisadas pela professora Paola Scheifer. Sobre a peça “Confabulações”, participante da Mostra Telmo Faria na noite de quinta (24), leia a crítica:


Quem és tu, mulher?

Antes de começar a desenovelar períodos e orações, preciso dizer: não sou mulher! Saliento o desconforto em escrever essas palavras, pois elas não me pertencem e são apenas uma tentativa de explicar o que senti, o que vi e o que experimentei, em meio aos momentos de êxtase e reflexão, durante o espetáculo.

Por meio das tortuosas linhas do destino, a Cia Buffa de Teatro, oriunda de Salvador, numa conversa amigavelmente misteriosa, nos convida à experiência de confabular . Em tom ácido e grandíloquo, quatro figuras nem um pouco ortodoxas – porém, de verossímil aparência – apresentam-se nuas e cruamente, transcendendo o próprio tempo e tecendo um diálogo sobre como se deu o desenrolar do comportamento machista impregnado, desde o início das civilizações, nas veias do destino humano , e que até hoje corrobora para estereotipar e categorizar a figura do feminino.

          De início, ao pisar no auditório do teatro, sob o arbitrário olhar das máscaras, uma sinestésica fotossíntese aromática nos permite adentrar no universo místico e ancestral que o espetáculo se propõe a criar. Perpassada pelo perfume do incenso, a plateia pode inspirar os ares de uma purga interior e experienciar – ou ao menos tentar, no caso do público masculino – o que é ser mulher desde os tempos da “criação”.

          Fazendo sua romaria até o palco, quatro figuras encapuzadas, maltrapilhas e encurvadas pelo peso do patriarcado conjuram, numa prece respeitosa, as forças do feminino entoando e exaltando célebres nomes, como o de Joana D’Arc, Marie Curie, Carolina de Jesus e Conceição Evaristo e outros mais.

Ao cair dos trapos, num esquizofrênico pranto de sinos e numa ciranda antropopática, surgem, então, as três Parcas – Nona, Décima e Morta –, ademais,  um quarto ser. Em um impecável figurino, quatro seres, cada qual a sua maneira, portando seios flácidos, vastas curvas, grandes genitálias e pelos pelo corpo, ilustram a individualidade de cada mulher, valorizando o sagrado feminino e criticando a beleza ditada através do tempo em que imperam a magreza e a – irreal – perfeição.

À quarta figura se designa o papel da , não uma, mas o de toda e qualquer. E dessa forma, as quatro bufonas, em uma dinâmica de alternância de protagonismo, interrogam-se: “Quem és tu, mulher?”.  As personagens se colocam no afã de confabular sobre os estigmas do patriarcado . Confabulam valendo-se das mais diversas expressões: em verso, música e dança, parodiam canções populares, funks, sambas e com gestos, dotados de muita razão, debocham do falocentrismo doentio impregnado em nossa sociedade. E nessa toada vão surgindo mulheres  advindas de um tempo antes do tempo e para além do tempo.

Incorporadas pelas quatro bufonas do espetáculo, surgem Lilith, Eva, Pandora, Psiquê, Medeia, Maria Madalena e a Virgem Maria. Uma a uma, em tom eloquente, revelam o pesar das chagas de terem suas histórias contadas e escritas por bocas e mãos masculinas, fato esse que reflete o machismo que até hoje existe no inconsciente de cada um de nós.

Irrompem, então, no palco, Kali e Baubo, censuradas através das eras pela falta de beleza e pela animalidade corporal, a primeira sob a pena de ser uma força destruidora, de caos e desnorteio; a segunda, recriminada por sua alegria, seu riso e atos decorridos de sua libido exacerbada. São acusadas de serem o que são, a femina que ri, dança e se deleita com seu próprio corpo em extravagância. São reprimidas e deixadas de lado ao longo da história, por apreciar aquilo que o masculum aprecia. No espetáculo, a presença de tais deusas representar a busca por crenças que engrandeçam as mulheres, ao invés de diminuí-las.

Surpreendentemente, o ápice da peça se dá quando o tênue véu que separa palco e plateia se desvanece. Nesse momento, vários novelos são desenrolados pelas bufonas e uma ponta das linhas é dada para cada mulher da plateia.  Assim, um grande círculo é formado e todas são convidadas a subir ao palco onde uma grande ciranda se forma. Numa sonoplastia sacramente ancestral, cada mulher dança e cantarola com a linha nas mãos, revelando o fato de serem elas as donas de seu corpo, sua vontade e de seu próprio destino.

Confabulações, com seu tom ácido, debochado e irônico, é um espetáculo que permite vestir-se do que é ser mulher, com os trapos e o peso legitimado pelo patriarcado através das eras, indo e vindo pela linha do tempo, alternando-se entre passado e presente, mito e realidade. Em síntese, o espetáculo reúne mulher, mito, riso e cena, demonstrando que gritar já não é mais suficiente e que a re(x)istência poderá ser feita pelo riso, a fim de que a pergunta “Quem és tu, mulher?” possa oferecer outras respostas, mais afirmativas e múltiplas.

Leonardo Sienkiewicz Carrera Guisantes, graduando do 3º ano de Letras Português/ Espanhol pela Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Foto: Maykon Lammerhirt


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