Dia do Servidor: A menina da lavoura agora é a Ilza da Prograd

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Em março de 2020, a seção de estágio da Pró-reitoria de Graduação (Prograd) da Universidade Estadual de Ponta Grossa precisava de um reforço na equipe. A vaga exigia alguém competente, atencioso e paciente, para ficar em constante contato com professores e estudantes. Não houve dúvidas: a pessoa certa para o trabalho era Ilza Aparecida de Matos. Do setor de limpeza da Prefeitura do Campus, Ilza ainda não havia completado dois anos de UEPG, mas já havia deixado sua marca.

“Sabe aquela pessoa que quando você conhece vai logo percebendo o quanto é dedicada e atenciosa? É ela, a Ilza. Com o seu trabalho e no convívio com as pessoas, é uma pessoa muito responsável, nota dez mesmo”, relata Márcio Champoski, antigo chefe de Ilza na Precam. Márcio não tem dúvidas da capacidade da Ilza, e vai além: “É uma funcionária merecedora que conquistou a todos que a conhecem com sua extrema competência e seu jeito simples de ser”.

Entre 2018 e 2020, Ilza trabalhou diariamente com Eduardo Pereira, prefeito do Campus. “Com a convivência, ficou evidente que ela tem conhecimento e habilidades que poderiam ser aproveitados na área administrativa. Além de muito competente, Ilza se destaca por ser bondosa e atenciosa com os colegas. Ao saber da sua formação técnica e da necessidade da Prograd, seu nome foi lembrado como opção para atender aquele órgão”, justifica.

Ilza concluiu duas graduações, Pedagogia e Licenciatura em Matemática. Em ambas, o estágio é obrigatório e foi realizado na rede pública de ensino. “As experiências em sala de aula, com crianças e adolescentes, me fazem acreditar ainda mais que o conhecimento transforma vidas, além de garantir um futuro digno”, aconselha a servidora.  Ao ser indicada para assumir a vaga na seção de estágios da Prograd, Ilza, que já passou por tantos desafios, não teve dúvidas e abraçou a oportunidade com determinação à nova rotina.

Origens

Natural de Jaguariaíva, Ilza é filha única. Os pais, semianalfabetos, eram pequenos agricultores. Ela trabalhava na lavoura e ajudava no cuidado dos animais. Com a morte do pai, aos 16 anos, ela e a mãe vieram morar na área urbana de Jaguariaíva para que pudesse concluir o ensino médio e trabalhar. Seu primeiro emprego foi como diarista, em seguida, em restaurante como auxiliar de cozinha e por último, em um supermercado, onde iniciou como auxiliar de limpeza e, por último, a função de fiscal de caixa. Neste período, a mãe veio a falecer.

Na infância, quando começou a estudar, não havia escola no bairro em que moravam. O trajeto era feito de ônibus até a escola municipal, em outro bairro. “A estrada era de terra e, em dias de chuva, encalhava o ônibus e ficávamos até a noite esperando um trator ir nos resgatar”, ri. Para Ilza, tudo aquilo era uma aventura. Ela conta que gostava muito daquela vida, e relembra que teve uma infância feliz. Sua primeira professora, Maria Aparecida Miranda, responsável pela sua alfabetização, teve grande influência na escolha da profissão. “Até hoje lembro de suas aulas. A professora era muito dedicada e com poucos recursos, tornava as aulas mais atraentes”.

Durante o resto do ensino fundamental, Ilza estudou na Escola Estadual Milton Sguário. Apesar de ser um pouco mais próxima de sua casa, ela ainda precisava enfrentar meia hora de caminhada para chegar à escola. “Íamos em vários colegas juntos: meu primo Jorge, mais velho que eu, era responsável por cuidar de mim. Em dias de chuva, era necessário colocar sacola plástica nos pés, por cima do sapato para não molhar. Não costumávamos faltar a escola, naquela época os alunos eram mais dedicados e responsáveis”, conta orgulhosa. Nesse período, Ilza teve um professor de matemática que considera espetacular, chamado Atílio. “As aulas eram lúdicas, e ele um professor apaixonado pela profissão. Não tive dúvidas: decidi que queria ser mesmo professora”, confessa, enquanto os olhos brilham.

Obstáculos

Ilza decidiu vir para Ponta Grossa em 2008, após ser aprovada no vestibular para Licenciatura em Matemática na UEPG. Além dos pertences pessoais, também vieram Nilson, seu marido, Estefani, sua filha mais velha, e muitos sonhos. “Foi uma decisão difícil vir embora para uma cidade grande, mas o sonho de estudar e crescer falava mais alto”, reflete. Enquanto cursava, Ilza também começou a fazer estágio no Protocolo Geral. “Ali começou meu desejo de fazer parte para sempre dessa família chamada UEPG”. Por conta das dificuldades financeiras, ela precisou trabalhar como vendedora. Saiu do estágio, trancou o curso e adiou o sonho da graduação, por tempo indeterminado.

“Sempre digo que, se temos um sonho, devemos acreditar, estudar e não medir esforços para torná-lo realidade”, pondera Ilza. Em 2011, a menina do interior, com sede de conhecimento e vontade de crescer, conquistou por meio do Prouni uma vaga com bolsa para cursar Pedagogia em uma instituição particular. No mesmo ano, Ilza também prestou concurso para o cargo de Auxiliar Operacional da UEPG e foi aprovada. “O tempo foi passando e a nomeação não saía, cheguei até a pensar que não iria assumir minha vaga”, lembra.

Enquanto seguia com os estudos e esperava a nomeação de seu cargo na UEPG, Ilza recebeu a notícia que a família logo aumentaria. Uma pausa na graduação e alguns meses depois, vieram à luz, em um quarto da Santa Casa de Misericórdia de Ponta Grossa, os gêmeos Mariah e Júnior, hoje com nove anos. “Os gêmeos nasceram em agosto numa quinta-feira de manhã, com muito frio e chuva. Nasceram prematuros com 36 semanas”, recorda.

Posteriormente, já formada em Pedagogia, Ilza decidiu retomar o sonho da graduação de matemática. Entretanto, conciliar uma graduação presencial com o trabalho e a vida doméstica seria impossível, em virtude dos seus afazeres como mãe, dona de casa e esposa. Seu marido, Nilson, aposentado por problemas de visão e com um histórico de dois transplantes sem sucesso, é seu principal incentivador.

Por isso, em 2015, Ilza prestou vestibular para Licenciatura em Matemática EAD, na UEPG. “Quatro anos mais tarde, minha segunda graduação foi concluída com sucesso”, comemora. Enquanto cursava, ela finalmente recebeu a nomeação para o seu cargo na UEPG e, em 2018, passou a fazer parte da equipe de limpeza da Prefeitura do Campus.

Atualmente

Em março de 2020, Ilza assumiu sua nova função. Agora agente administrativa, ela trabalha com termos de compromisso de estágio obrigatório e não obrigatório, orientação a acadêmicos e professores da Universidade através de e-mail, telefone, protocolo e WhatsApp. “A demanda de trabalho da Ilza não é pequena e requer muita atenção”, destaca o pró-reitor de graduação Carlos Willians Jacques Morais. “Ela se sai muito bem em frente aos desafios da seção. Sabe trabalhar em equipe e supera os desafios do trabalho diário. Contar com a Ilza em nossa equipe Prograd é saber que temos que acreditar na capacidade das pessoas em superar velhos problemas com soluções novas”, ressalta Jacques Morais.

A professora Cristiane Aparecida Woytichoski, diretora de ensino da Prograd, conhece Ilza desde quando ela trabalhava na Precam e agora trabalha diariamente com ela. “Na seção de estágio, Ilza se destaca por sua dedicação e comprometimento com os acadêmicos, professores e processos. Ela é sempre muito solícita, atende os chamados e procura resolver o mais rápido possível”, complementa.

Em razão da pandemia, Ilza ainda não é um rosto conhecido pela comunidade acadêmica. Sua carga horária de trabalho é dividida, sendo meio período presencial e outro em home office, mesmo assim ela é facilmente acessível além do horário. De casa, ela adora ajudar a família nas tarefas de casa. Os gêmeos requerem mais atenção: “Fico muito preocupada com o aprendizado deles nesse período de pandemia. Sempre coloco umas tarefinhas a mais”, sorri.

“Sou grata a todos e todas as minhas colegas da Precam, que me incentivaram e também pelos novos amigos que conquistei na Prograd e, ao mesmo tempo me sinto realizada por saber que fui reconhecida por ter estudado e por toda minha dedicação”, expressa Ilza. “A todos, deixo meu recado: o meu sonho ainda não acabou, estou preparando meu projeto para o mestrado e um dia ainda farei um doutorado”.

Texto: Carlos Clarindo   Fotos William Clarindo (na Prograd) e Arquivo Pessoal (restante)

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