Carolina em HQ traz quadrinhos premiados internacionalmente

“Carolina é biografável, primeiro, porque é escritora. Ela tem um projeto literário”. Nessa simplicidade, a professora e pesquisadora Sirlene Barbosa conta a importância de se falar sobre Carolina de Jesus. Sirlene é uma das autoras de “Carolina”, uma biografia em quadrinhos produzida junto com o ilustrador e roteirista João Pinheiro, que fala sobre o cotidiano da mulher negra e favelada, que ganhava a subsistência como catadora e está entre as primeiras e as principais escritoras negras no Brasil.

A exposição Carolina em HQ traz originais da história em quadrinhos e está exposta no Espaço Cultural Debret, no Museu Campos Gerais até 14 de março de 2020. Inaugurada de forma inédita no país na última terça (19), a mostra integra a programação do mês da consciência negra no MCG e foi contemplada pelo edital de Seleção de Projetos sobre Expressões e Manifestações da Cultura Afro-Brasileira do Conselho Municipal de Política Cultural de Ponta Grossa e Fundação Municipal de Cultura, com a curadoria do jornalista e professor da UEPG, Ben-Hur Demeneck.

Os autores participaram da estreia de “Carolina em HQ”, de bate-papo com estudantes e docentes de Artes Visuais da UEPG na Biblioteca Central Faris Michaele (Bicen) na tarde de quarta (20) e da inauguração do Instituto Sorriso Negro, em Uvaranas. Como comemora a diretora da Biblioteca, Eunice de Morais, a oportunidade de conversar com os pesquisadores e autores é única, especialmente por acontecer no ambiente da Biblioteca. “A primeira vez em que eu li Carolina de Jesus, eu me emocionei. As obras são clássicos, um norte de vida”, recomenda a diretora.

O professor Nelson Silva Junior, coordenador do curso de Artes Visuais, ressalta a importância de eventos que trazem o debate para os ambientes da universidade e da comunidade.  “Momentos como esse, de debater as obras, são de extrema importância para os alunos, tão importantes quanto a sala de aula”, aponta. Ele deixa ainda o convite para visitar a exposição: “Para quem ainda não conhece a Carolina, é uma oportunidade para conhecer”.

A obra “Carolina” foi premiada na França, no Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême, o mais importante prêmio internacional de HQs do mundo, e foi finalista do Prêmio Jabuti. O livro traz uma biografia de Carolina Maria de Jesus em formato de história em quadrinhos.  Carolina marcou época nos anos 1960, quando se tornou uma escritora de destaque no país. A obra “Quarto de Despejo” chegou ao topo da lista de mais vendidos e foi publicada em 13 países.

Carolina de Jesus nasceu em Sacramento, Minas Gerais, em 1914 e faleceu em 1977, em São Paulo. Foi descoberta na favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo, no final dos anos 1950. A trajetória de luta e superação da escritora é relatada nos quadrinhos, que mostram a história da mulher negra, pobre. mãe de três filhos e moradora da favela do Canindé, apadrinhada pelo jornalista Audálio Dantas, que a ajudou a publicar seu trabalho. A fama, as ilusões, as decepções e o esquecimento de Carolina estão narrados na obra.

“Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.” Esse trecho de “Quarto de Despejo”, de Carolina de Jesus, exemplifica o tom da obra. A crítica social, a descrição crua da realidade das periferias brasileiras na metade do século XX e o protagonismo da população pobre permeiam o discurso da autora.

A autora Sirlene Barbosa conta que a ideia de fazer um livro sobre Carolina de Jesus partiu da percepção de que pouco se falava sobre autores e protagonistas negros. “O objetivo é apresentar negros em outros espaços, diferentes daqueles que aparecem, ainda, nos livros didáticos, relacionados com a escravidão”, explica a autora.

Os quadrinhos foram feitos somente com lápis, papel e borracha, escolha deliberada para mimetizar a forma com que  Carolina fazia seus livros, com materiais simples. “Foi preciso conhecer como era uma favela de São Paulo na década de 1950 para poder desenhar de forma mais realista e detalhada, por exemplo, a forma como eram construídos os barracos”, destaca o ilustrador e roteirista João Pinheiro.

O espaço cultural Debret, onde a história de Carolina Maria de Jesus está exposta, foi inaugurado junto com a exposição, na última terça-feira (19). A entrada para a visitação é gratuita. O Museu Campos Gerais está localizado na Rua Engenheiro Schamber, 686, e a mostra fica aberta ao público de terça a sábado, das 9h às 11h30 e das 13h30 às 17h.

Texto e fotos: Aline Jasper