O acesso à informação sobre saúde nem sempre faz parte da rotina de quem passa boa parte do dia no trabalho e ainda precisa conciliar as demais responsabilidades com os cuidados pessoais. Para promover esse diálogo com as trabalhadoras da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Uvaranas (Acamaruva), o projeto de extensão “ManipulAÇÃO: manipulando cosméticos e transformando vidas”, do curso de Farmácia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), realizou, na sexta-feira (30), uma atividade de conscientização sobre a saúde da mulher. A iniciativa integrou as ações do Outubro Rosa, campanha de prevenção dos cânceres de mama e de colo do útero, e também contou com a entrega de produtos cosméticos às participantes.
A professora Patrícia Döll Boscardin, responsável pelo projeto, explica que a atividade abordou a importância de conhecer o próprio corpo, prestar atenção a possíveis alterações e procurar os serviços públicos para realizar os exames indicados. Patrícia lembra que a identificação precoce é fundamental para ampliar as possibilidades de tratamento. “A chance de cura é muito alta se for descoberta no início, mas tem que estar acompanhando, tem que estar rastreando”, ressalta. A ação do Outubro Rosa também incluiu a doação de cremes faciais antioxidantes com vitamina C, destinados às trabalhadoras da associação. De acordo com a professora, os produtos que foram recebidos gratuitamente de uma marca de cosméticos teriam custo estimado em R$ 3 mil, caso fossem adquiridos.
O projeto “ManipulAÇÃO” desenvolve atividades na Acamaruva desde 2019. A proposta surgiu a partir da preocupação com as condições de trabalho dos catadores, que lidam diariamente com a separação de resíduos e podem ficar expostos a agentes capazes de prejudicar a saúde, especialmente a pele. Entre as ações realizadas estão rodas de conversa, palestras e oficinas sobre produção de velas, aromatizadores, sabão caseiro e repelentes naturais, além de orientações sobre plantas medicinais. Segundo a professora Patrícia, com a ampliação das atividades extensionistas vinculadas às disciplinas dos cursos, o projeto também chegou a outros espaços da comunidade, incluindo escolas, e passou a discutir temas como saúde mental.
Durante o encontro, as acadêmicas de Farmácia conversaram com as trabalhadoras sobre a prevenção de doenças. Júlia Monteiro, do primeiro ano, apresentou informações sobre a mamografia, o exame clínico das mamas e o Papanicolau, utilizado no rastreamento do câncer de colo do útero. A aluna destacou que a percepção de alterações pelo próprio toque é importante, mas não substitui os exames e a avaliação dos profissionais de saúde, e ressaltou a necessidade de realizar o acompanhamento da saúde mesmo na ausência de sintomas. “Não adiem o cuidado, sempre se coloquem em primeiro lugar, porque são exames rápidos, são exames seguros e que podem salvar a vida de vocês”, alertou. Júlia conta que conheceu o projeto por meio das publicações no Instagram e considera que as atividades permitem ir além da teoria aprendida em sala de aula.
A estudante Rafaella Kerek participa do projeto desde o ano passado e esteve pela segunda vez na Acamaruva para conversar com as trabalhadoras sobre o Outubro Rosa. Durante a atividade, apresentou possíveis sinais de alerta relacionados ao câncer, como nódulos nas mamas ou axilas, alterações na pele, vermelhidão, mudanças no formato das mamas e secreções espontâneas pelos mamilos. A estudante ressaltou que a presença desses sinais não significa necessariamente um diagnóstico de câncer, mas deve motivar a procura por atendimento médico. A aluna também chamou a atenção para o fato de que a doença pode apresentar poucos sinais perceptíveis, o que torna importante o acompanhamento regular da saúde.
Rafaella destaca a receptividade das trabalhadoras durante as conversas e o interesse demonstrado pelas participantes. “É muito bom a experiência da extensão, justamente para você ter contato com outras pessoas, com outras realidades, e ver como o mundo funciona fora da bolha universitária”, afirma. A acadêmica considera gratificante perceber que as orientações despertam a atenção das mulheres e dão espaço para perguntas e esclarecimento de dúvidas. “É muito bom poder contribuir com elas com uma pequena fala que seja”, completa.
Para Joelma dos Santos, que trabalha há cinco anos na separação de materiais recicláveis, as ações promovidas pela UEPG permitem que elas tenham acesso a informações sobre diferentes assuntos. Além das orientações sobre saúde, ela lembra de outras atividades realizadas no local, como conversas com profissionais de psicologia. “Esse pessoal da UEPG sempre vem aqui. Às vezes, a gente fica sabendo de alguma coisa nova, tira algumas dúvidas, a gente conversa, dá risada”, relata. Ela conta que o trabalho na associação é cansativo, especialmente pelo esforço físico exigido, mas destaca a convivência entre as colegas. “O dia a dia da gente aqui é gostoso, bastante cansativo, mas é gostoso trabalhar assim todo mundo junto”, conclui.
Texto e fotos: João Pizani






















































