Pesquisadoras da UEPG refletem sobre o papel da mulher dentro e fora da universidade

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O Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, marca a importância das conquistas e lutas diárias em todos os espaços sociais. Na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), elas fazem ciência, lideram pesquisas e projetos, em diversas áreas do conhecimento, e estudam o papel da mulher no mercado de trabalho, no ambiente universitário e na sociedade. Conheça algumas delas, suas experiências e reflexões sobre o tema.

Levantamento divulgado  na sexta-feira (04) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que 54,5% das mulheres com 15 anos ou mais integravam a força de trabalho no país em 2019. Entre os homens, esse percentual foi 73,7%. Mesmo com avanços ao longo das últimas décadas, a professora Lenir Mainardes, pesquisadora das Ciências Sociais, aponta que há muito a ser melhorado. “A mulher sempre trabalhou, mas nem sempre foi reconhecida como classe trabalhadora. Esta classe era caracterizada pelo operariado masculino. Porém, entre tantas lutas e conquistas, a classe trabalhadora hoje é formada por muitas mulheres e diversas outras comunidades”. A professora também aponta que devido à escolaridade conquistada ao longo dos anos pelas mulheres, hoje elas podem atuar no mundo da produção em tempo integral, parcial, ou terceirizada.

A professora de Direito Jeaneth Nunes explica que o mercado de trabalho ainda é um ambiente desigual, com relação às condições dadas para as mulheres. “As mulheres continuam a cumprir as maiores jornadas de trabalho e ganham significativamente menos que os homens. A luta das mulheres, historicamente, tinha como bandeira a igualdade, a busca por melhores condições de trabalho e melhores salários”. 

“Outra questão importante é o desempenho das mulheres como assalariadas, que por vezes, interrompe-se pela necessidade de dedicação aos seus filhos”, enfatiza a professora Lenir. “Estão de forma intensa na esfera da reprodução, cuidando, educando, protegendo seus filhos, netos, idosos, quando não, cuidando de filhos e netos de outras mulheres. Constitucionalmente, homens e mulheres são iguais perante a lei, mas, ao mesmo tempo, a desigualdade persiste”.

Vivência no âmbito universitário 

Nas faixas etárias mais jovens, o mesmo estudo do IBGE aponta que a proporção de mulheres com nível superior completo é maior: 15,1% são homens e enquanto elas são 19,4%. A mudança ocorreu nas últimas décadas, visto que no grupo acima de 65 anos, as mulheres registram nível de instrução ligeiramente inferior ao dos homens. A professora Lilian Tais de Gouveia, coordenadora do Curso de Engenharia Civil da UEPG, conta que durante sua trajetória na graduação vivenciou diversas situações de preconceito e machismo. “Nem tudo foi pavimento, encontrei umas pedras também. Ouvi de um professor, quando eu era mais nova: ‘já tem namorado? Se não tiver arranja! Depois que sai da Universidade não se casa mais’”, relembra. “Também ouvi algo assim de outro professor, pioneiro mundial em pesquisas em uma determinada área”. A coordenadora também relata que quando ingressou no departamento, já como professora, ouviu diversas frases preconceituosas. “Eu já ouvi de um colega: ‘tem que parar de entrar mulher neste departamento, daqui a pouco teremos que pintar o bloco de rosa’. Nem respondi, eu sabia da minha trajetória e que havia estudado muito para chegar lá. Eu estava feliz pelo que tinha conquistado e já era o suficiente”, declara.

Neste ano, a docente de Agronomia Maristella Dalla Pria completou 25 anos como servidora efetiva da UEPG. Com a bagagem adquirida ao longo do tempo e por tudo que vivenciou na Universidade, ela acredita que ainda é preciso ampliar os espaços para as mulheres na ciência brasileira. “Há preconceito e machismo em diversos segmentos da sociedade, um incômodo quanto à presença das mulheres na ciência. As mulheres enfrentam diversos obstáculos, mas acredito que nós temos muito a contribuir para a pesquisa científica no Brasil”, comenta.

Do departamento de História, a professora Georgiane Garabelly Vásquez indica que na sua área de atuação há muitas mulheres trabalhando, porém, muitos desafios ainda precisam ser superados. “As ciências humanas, por exemplo, sempre tiveram um número maior de cientistas mulheres. Contudo, nem sempre elas ocuparam lugar de destaque. Nas humanas, também se estruturam formas de opressão que passavam principalmente pela sobrecarga de trabalho doméstico/familiar em oposição ao mercado de trabalho remunerado e competitivo. É por isso que precisamos reorganizar a estrutura de cuidados e tirar dos ombros das mulheres o peso desproporcional que isso tem”, expressa.

A diretora acadêmica do Hospital Universitário (HU-UEPG), Fabiana Bucholdz Teixeira Alves, que também coordena a Residência Multiprofissional em Neonatologia do HU e atua na coordenação de profissionais da linha de frente na luta contra a Covid-19, destaca que a instituição exerce reconhecimento e valorização do seu trabalho.

“Tenho muito respeito, amor e admiração pela UEPG. Na instituição, eu construí e continuo construindo minha carreira na área de saúde, de agente administrativa, técnica, professora colaboradora e efetiva, atualmente, no curso de Odontologia”. A docente conta que sempre foi valorizada pela sua capacidade profissional e agradece pelas oportunidades que recebeu na instituição. “Tenho uma trajetória de 30 anos de UEPG e faria o mesmo trajeto novamente, pois a área acadêmica me proporciona muitas realizações, uma área de trabalho muito privilegiada na visão da possibilidade de promover mudanças e melhoras no ensino. Represento com muito orgulho a mulher na área de saúde, sendo valorizada no mercado de trabalho nos dias atuais e fico feliz ao ver o sucesso dos meus alunos de graduação e pós-graduação na profissão”, declara.

Visibilidade à luta

Pós-doutoranda pela UEPG, Rafaela Lopes Falaschi é uma das fundadoras de uma rede de mulheres na ciência, projeto que iniciou em 2016, a partir de conversas sobre o tema no ambiente acadêmico. Após vivenciar algumas situações de preconceito e machismo, ela resolveu criar um grupo no Facebook para que mulheres cientistas pudessem compartilhar suas experiências. “O grupo que era para ser pequeno, para trocarmos relatos e artigos, reuniu em apenas um mês 1.500 pessoas interessadas no assunto”, relembra.

Rafaela percebeu que existiam poucos veículos de comunicação sobre a participação feminina na Ciência. Foi a partir dessa observação que surgiu a revista on-line Mulheres na Ciência. A bióloga destaca que o principal objetivo da revista é dar visibilidade às histórias de pesquisadoras e valorizá-las. “Existe um monte de pesquisadoras maravilhosas nos dias de hoje, mas no passado elas também existiram, só que elas não apareciam nos livros porque a história sempre foi contada por homens. Queremos resgatar os feitos dessas mulheres e apresentar na forma de divulgação científica”, relata. 

O Dia Internacional da Mulher é uma data que deve ser marcada não por comemorações, mas sim, por luta e protesto contra a desigualdade de gênero, como finaliza a professora Jeaneth: “As mulheres têm que cada vez mais lutar pelo direito de serem ouvidas, de votar e serem votadas, enfim, pelo direito de não serem invisíveis. Apesar de sermos maioria na sociedade, pouco se avançou na igualdade efetiva das mulheres e na superação da desigualdade de gênero. As mulheres continuam sendo vítimas de violência cotidiana e continuam a morrer simplesmente porque são mulheres, e infelizmente, esse ainda é um retrato que precisa ser lembrado neste 8 de março de 2021”.

Ddesigualdade

A Elsevier publicou em novembro do ano passado “A jornada do pesquisador através de lentes de gênero”. Os dados do levantamento apontam a participação das mulheres em pesquisas, progressão na carreira e percepções em 26 áreas temáticas de toda a União Europeia e em 15 países, incluindo o Brasil. De acordo com o estudo, a desigualdade de gênero permanece em áreas temáticas em termos de resultados de publicações, citações, bolsas concedidas e colaborações. Em todos os países, a porcentagem de mulheres que publicam internacionalmente é menor do que a de homens. Confira no gráfico abaixo, as áreas que, no Brasil, as mulheres são maioria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrevistas: Vanessa Hrenechen e Julio César Prado | Pesquisa de dados e Arte: Luciane Navarro | Fotos: Arquivos pessoais das entrevistadas

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