Pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) desenvolveram duas variedades de milho pré-comerciais que são inéditas no agro e no mercado. O milho verde, a partir da variedade crioula, e o milho superdoce são resultado de um trabalho de mais de duas décadas do professor do Departamento de Fitotecnia e Fitossanidade, Rodrigo Matiello. Juntamente com professores e alunos, a pesquisa desenvolveu variedades de produção que são vantajosas economicamente para pequenos produtores e apetitosas na culinária. Agora, a expectativa é finalizar os testes comparativos para disponibilizar os grãos comercialmente.
As Variedades de Polinização Aberta (VPA) dos milhos foram desenvolvidas a partir de estudos genéticos e de observação em campo e em laboratório. “Há duas décadas, quando finalizei meu doutorado, começamos a estudar as raças crioulas e percebemos que elas tinham um sabor muito agradável quando cozidas como milho verde. E foi dessas raças crioulas que surgiram os primeiros materiais para seleção de plantas”, recorda Matiello. A produção se deu pelo método de seleção recorrente, que busca o melhoramento genético por meio de repetição de ciclos no campo e recombinação dos melhores indivíduos. O trabalho ocorreu em parceria com o professor José Raulindo Gardingo. O resultado desta metodologia foram milhos maiores em tamanho, com cores mais vivas e grãos graúdos, segundo o pesquisador.
Somente da variedade de milho verde a partir da raça crioula foram nove ciclos de seleção recorrente, o que aperfeiçoou o tamanho e a palatabilidade do vegetal. “A base genética é o milho crioulo, que tem grãos menores e coloridos”, conta. Visivelmente, o milho melhorado geneticamente em laboratório teve mudanças: para chegar no resultado, os pesquisadores colhem, observam as melhores espigas e retornam com as selecionadas para intercruzarem no campo novamente. “Veja como a espiga mudou bastante. Isso é o efeito da seleção recorrente”, aponta Matiello para as espigas.
- variedade crioula
- milho verde modificado na UEPG
O trabalho que realizou, juntamente com alunos e professores do Grupo de Melhoramento Genético da UEPG, chegou em um milho verde com potencial comercial. “É uma inovação tecnológica. Avaliamos cerca de 150 a 180 diferentes progênies [que identifica linhagens superiores, focando em produtividade] de uma população. Dessas, faço a etapa de avaliação, e aí eu seleciono quais são as melhores. Essas selecionadas eu reduzo lá para 20%, 30% no máximo daquelas espigas”. Segundo Matiello, uma espiga considerada de qualidade tem 15 cm de cumprimento e 3 cm de diâmetro.
- processo de seleção do milho em laboratório
Milho superdoce
Além do milho verde, os pesquisadores também trabalham com duas variedades de milhos doces, um deles superdoce, que está no terceiro ciclo de seleção recorrente. Os resultados já estão visíveis e palatáveis. “O milho superdoce tem uma baixíssima concentração de amido, pois esta mutação impede a conversão do açúcar em amido”, descreve o pesquisador. Os milhos superdoces têm cerca de oito vezes mais teor de açúcar que o milho comum. “Geralmente, consumimos milhos doces enlatados, mas este aqui é muito mais saboroso e pode ser consumido in natura“, informa. Este VPA ainda terá mais ciclos de melhoramento, apesar de estar mais bonito e maior, comparado ao milho convencional, encontrado nos supermercados. “Você encontra os milhos que são vendidos e estão sem cor e não têm um sabor muito bom, mas estes aqui são extremamente saborosos e dão uma sensação de saciedade muito mais rápido”.
- melhoramento do milho doce
- seleção de milho superdoce
A partir de agora
Ao falar sobre os mlhos produzidos em laboratório, Matiello descreve que são materais “com alto potencial produtivo em toneladas por hectare de espigas, além de um sabor inigualável”. Mas para que seja oficialmente lançado, ainda faltam as etapas de avaliação com outros materiais comerciais, juntamente com testemunhas do mercado. Depois de aprovado, há a fase de registro e validação no Ministério da Agricultura. “Eu acredito que vai passar, porque em todos esses experimentos de avaliação, nosso material é inconfundível em termos de sabor, de textura. É muito diferente, não tem no mercado isso”, destaca. A previsão para a finalização, especialmente para o milho verde a partir da variedade crioula, é de em torno de dois anos.
Capacidade produtiva
São milhos que compensam comercialmente. “Elas batem anos luz à frente, em termos de potencial produtivo, com milhos convencionais. A qualidade da espiga, tamanho, comprimento, diâmetro, comprimento do grão, profundidade do grão, tem sabor, então tudo é muito bom, entende?”. Esta descrição do professor Matiello também é vantajosa para pequenos produtores, pois os milhos podem ser colhidos escalonadamente: “uma variedade de polinização aberta é um conjunto de genótipos diferentes que compartilham o mesmo reservatório gênico. Ele não é um híbrido, que uma vez que ele floresceu, todos florescem, todos produzem espiga no mesmo dia. Aqui não, você pode fazer um escalonamento dessa produção, porque [o tipo do milho] possibilita isso”.
Em um esquema de agricultura familiar, o produtor ainda pode utilizar o que sobra para alimentar os animais, produzir sua própria semente e utilizar a palha para o solo. “Então, tem uma grande vantagem. Primeiro que você tá produzindo uma coisa de de qualidade, com um sabor muito diferente e, além disso, você tem um produto adaptado a essas condições de campo de pequena propriedade”, conta. “Feliz com o “trabalho da vida”, como classifica, Matiello ainda não tem o nome comercial dos milhos, mas adianta que pensa em algo que remeta à Universidade. “É um trabalho de muitos anos, do qual tenho orgulho”.
Texto: Jéssica Natal | Fotos: Jéssica Natal e Aline Jasper















