Editora UEPG lança livro sobre a presença quilombola na pós-graduação

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A presença e a trajetória de estudantes quilombolas na pós-graduação no Brasil é tema de um livro lançado pela Editora UEPG, da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Escrito pela pesquisadora Andréia Rosalina Silva, pós-doutoranda em Antropologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, o livro “Quilombolas na pós-graduação: construindo ‘Ébgés’ de Resistência no Ensino Superior Brasileiro” está disponível gratuitamente em formato e-book.

A publicação integra a coletânea Reexistências, iniciativa da Editora UEPG, que reúne obras de professores e pesquisadores negros no debate sobre ensino, história e culturas afro-brasileira, africana e indígena. A obra de Andréia parte de uma lacuna identificada durante sua trajetória acadêmica, ao perceber a escassez de estudos sobre a presença quilombola no ensino superior. “Ainda no mestrado, estudando sobre dimensões educativas do associativismo negro entre 1950 e 1960 em Minas Gerais, terra de muitos quilombos, descobri que havia muitos estudos sobre a Educação Escolar Quilombola, mas quase nada relativo à sua presença no Ensino Superior”, relata. Segundo a autora, o contato com pesquisadores da área evidenciou uma deficiência ainda maior na pós-graduação, o que motivou o desenvolvimento da pesquisa no doutorado, realizado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Para a autora, a existência de uma coleção dedicada à produção intelectual de pesquisadores negros contribui para ampliar a representatividade e reconhecer a importância do conhecimento produzido por esses sujeitos. “Significa valorizar e dar visibilidade à produção acadêmica de pesquisadores afrodescentes, fortalecendo suas vozes, experiências e perspectivas dentro da Universidade, do conhecimento científico e da sociedade como um todo”, destaca. “Espero que a obra alcance um público maior e facilite o acesso ao conhecimento, para pessoas comuns, mas especialmente para estudantes e pesquisadores interessados no tema. A disponibilização gratuita do e-book contribui para fortalecer os debates sobre inclusão, permanência e políticas afirmativas no ensino superior brasileiro, além de ampliar a divulgação das experiências e a história dos afrodescentes neste país”, conclui.

Curadora da coletânea Reexistências, a professora Ione da Silva Jovino destaca o recorte específico da pesquisa de Andréia no estudo das ações afirmativas, que é pensar trajetórias. “Quando uma pessoa quilombola entra na universidade, é como se toda a sua comunidade também entrasse. É importante pensar nessas transformações coletivas que vão acontecer na comunidade, mas também acontecem na universidade, que precisa se adequar e mudar para receber esse público diverso. Então, essa produção dialoga muito fortemente com a ideia de resistência”, observa.

A professora Ione explica que a proposta da coletânea surgiu durante a organização do 6º Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros e Negras da Região Sul, realizado na UEPG, em 2023, quando se decidiu criar um espaço institucional para a publicação de pesquisas voltadas à temática étnico-racial. A seleção das obras ocorre por meio de edital permanente, aberto em parceria com a Editora UEPG (saiba como enviar uma proposta de publicação, clicando aqui). “O nome da coleção vem da expressão ‘letramento de reexistência’, cunhada por uma pesquisadora negra, a professora Ana Lúcia Silva Souza da Universidade Federal da Bahia, e tem a ver com práticas de leitura e de escrita elaboradas por pessoas negras. No combate ao racismo, é muito importante que a gente possa trazer as pessoas negras em primeira pessoa para falar da questão racial negra do seu ponto de vista e a partir da sua produção acadêmica”, afirma Ione.

Diretor e coordenador editorial da Editora UEPG, Jeverson Machado do Nascimento reforça que a disponibilização gratuita de livros acadêmicos está alinhada à missão das editoras universitárias de ampliar o acesso ao conhecimento no país. “Tratando-se da coleção Reexistências, já fazem mais de vinte anos desde o início das políticas de cotas nas universidades públicas brasileiras, e na UEPG esse processo começou no Vestibular de 2007. Isso representou uma ampliação importante no acesso ao ensino superior e também contribuiu para diversificar o perfil dos pesquisadores dentro das universidades. Naturalmente, essa diversidade se reflete na produção acadêmica, que tem se mostrado cada vez mais consistente e relevante. O próprio livro da doutora Rosalina é um exemplo disso, ao apresentar uma pesquisa sólida dentro desse contexto”, comenta.

Jeverson também chama atenção para mudanças no cenário editorial brasileiro. “A pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil, com dados de 2025, aponta as mulheres negras como o maior grupo de leitores do país hoje. Isso demonstra um novo panorama no mercado editorial”, afirma. O diretor também destaca o trabalho envolvido na produção editorial de uma obra acadêmica, desde a submissão até a publicação final. “Publicar um livro dá bastante trabalho, tanto para a autora como para a equipe editorial. Mesmo depois do texto entregue para a publicação acontece muita revisão e reescrita. Depois tem a diagramação, que é um trabalho bastante minucioso. E depois mais outras revisões. Mas é gratificante para a equipe e os autores depois do trabalho pronto”.

O e-book do livro de Andréia Rosalina Silva pode ser acessado gratuitamente no site da Editora UEPG, clicando aqui.

Texto: João Pizani | Fotos: Antonio Scarpinetti, para o Jornal da Unicamp; e Aline Jasper.


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