Basta apenas alguns passos para atravessar a fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Em Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero, cidadãos dos dois países convivem em estreita proximidade, sem rios, pontes ou quaisquer barreiras físicas que separam as “cidades gêmeas”. Na divisa, o uso do portunhol (ou do guaraportunhol) é comum no dia a dia, assim como o hábito de tomar tererê. Mas há outro elemento que representa a influência recíproca entre as culturas brasileira e hispano-guarani: a música. É este fenômeno que o professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Fábio Anibal Jara Goiris retrata no livro Historia y aculturación de la música popular en la frontera.
A música não é apenas o objeto da pesquisa, ela é um instrumento para compreender a própria sociedade fronteiriça. A obra foi lançada em 17 de julho, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, cidade onde o professor nasceu. Nesta quinta-feira (13) ele esteve na UEPG para apresentar o livro ao reitor Miguel Sanches Neto, em encontro realizado no gabinete da Reitoria. No livro, Goiris utiliza a música popular para tratar de um processo mais amplo, definido por ele como “aculturação por interação mútua”. O conceito descreve, segundo o autor, o contato contínuo entre grupos de diferentes culturas, sem que uma delas desapareça. “A aculturação na fronteira não apaga a nacionalidade de origem, mas transforma a maneira como ela é vivenciada”, explica.
Segundo Goiris, a música ocupa papel central nesse processo porque possui forte presença na cultura popular sul-americana e circula com facilidade entre os dois países. “O artista fronteiriço, homem ou mulher, canta músicas em três idiomas nas suas apresentações”, exemplifica. A partir da música folclórica, o pesquisador procura identificar como as referências culturais brasileiras e paraguaias se encontram e se misturam. Ele diferencia esse processo de situações em que uma cultura é imposta sobre outra. Na fronteira seca, a influência ocorre nos dois sentidos e produz o que Goiris chama de “cultura pedrojuanina”, uma identidade própria da região. Para ele, essa identidade não substitui as referências nacionais, já que o habitante da fronteira passa a combinar elementos de sua cultura de origem com aqueles incorporados no contato com o país vizinho, experiência que produz uma espécie de “dupla competência” pela qual o indivíduo aprende a circular entre diferentes códigos culturais e linguísticos.
A produção do livro também tem relação direta com a trajetória pessoal do autor. Nascido na região da fronteira entre os dois países, Goiris conta que muitos dos músicos entrevistados eram seus vizinhos. “É um retorno à realidade de antanho. Isso facilita escrever um livro”, relata. Professor do Departamento de Odontologia da UEPG desde 1985, desenvolve paralelamente à atividade acadêmica na área da saúde pesquisas e publicações relacionadas à história, à política e à sociedade do Paraguai e do Brasil. Ele já havia publicado em 2000 o livro Descubriendo la frontera, também dedicado à história fronteiriça.
Texto: João Pizani, com apoio de Aline Jasper | Fotos: Aline Jasper





