UEPG finaliza 51º Fenata com foco na palhaçaria

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“Esta será a melhor apresentação da minha vida”. No camarote, antes de entrar no palco, o Palhaço Chacovachi se preparava para sua apresentação de encerramento do 51º Festival Nacional de Teatro da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Fenata-UEPG). A edição não poderia terminar de outra maneira – uma apresentação de palhaçaria, que deu o tom do Festival de 2023. Foram 31 peças apresentadas de 03 a 09 de novembro, em diversos locais de Ponta Grossa.

O palhaço Chacovachi é o argentino Fernando Cavarozzi, considerado um ícone da palhaçaria de rua em toda a América Latina. Apesar da experiência e reconhecimento, ele se disse nervoso para subir ao palco ao lado da companheira de cena e de vida, Maku Fanchulini. “Me preparei toda a vida para isso, como se fosse ir para a guerra, vim preparado, então é muita alegria estar no Fenata, é um Festival muito importante, temos certeza que vamos encontrar uma plateia maravilhosa”, destaca.

O Fenata marcou tudo o que um palhaço pode fazer: brincadeiras com o público e reflexões. Além da palhaçaria, o Festival também trouxe peças infantis, mostra de rua, bate-papo com atores e apresentações em escolas, Sesc Estação Saudade, Terminal Central de ônibus, Teatro Ceci, Cine-Teatro Ópera e Lago de Olarias – este último local serviu como palco para a programação prévia, que aconteceu de 26 a 31 de outubro.

Para que o evento acontecesse, o Fenata recebeu grandes nomes da palhaçaria, como Márcio Líbar, o palhaço Cuti Cuti, que emocionou e divertiu o público. Para ele, estar ao lado dos colegas foi uma honra. “Temos sempre uma diversidade muito grande, de linguagem e de experiências. Há um respeito muito grande pelas diferentes formas de linguagem e dentro dessa quantidade tem muita qualidade. Todos nós elogiamos muito o trabalho uns dos outros”.

Big Bang

Depois de mais de 40 anos de hiato, o Grupo de Teatro Universitário retornou ao Fenata. Com ensaios desde o início do ano, o GTU apresentou a peça “Big Bang”, escrita por Tairone Vale e dirigida por Daniel Frances. A apresentação ocorreu em 7 de novembro, mesmo dia do aniversário de 50 anos da sua criação. “Somos um grupo que se uniu de uma maneira muito rica. Conseguimos a proeza de lotar o Festival e levantar um espetáculo em setes meses para montagem e ensaio da peça”, comemora Daniel. Ele testemunhou o nascimento do GTU, quando tinha nove anos, no início do Fenata. “Eu lembro de estar chorando e aí eu disse, ‘cara, eu tenho que fazer teatro'”, relembra. O sonho aconteceu, com o GTU de volta aos palcos em 2023. “O Grupo cresceu e espero que mais pessoas tenham vontade de ingressar, ano que vem”.

Big Bang é uma obra lúdicamque mergulha nas profundezas do universo para desafiar a compreensão do tempo e do espaço. O texto foi selecionado para ser publicado no livro “48º Fenata – A Cena Dramatúrgica Brasileira”, em 2021, o qual retornou neste ano para ser encenado pelo GTU. “Ter meu texto publicado e apresentado foi de uma alegria e honra muito grandes. Um festival que eu tenho muito carinho e admiração, principalmente por estar acontecendo há mais de 50 anos de maneira ininterrupta”.

Peças

Bastou pisar pela primeira vez no palco do Ópera, que Amaury Lorenzo ficou encantado. “Que teatro lindo, gratidão por estar aqui”, dizia enquanto olhava para cada canto e testava a acústica do local. “Eu tô apaixonado por este teatro, um lugar com tanta história receber esta peça, para mim é uma honra”, comemora. No domingo (05), Amaury apresentou a peça “A Luta”, que retrata a terceira parte da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha. Para o ator e único personagem da peça, a apresentação traz uma história extremamente brasileira de conexão com a identidade de um povo. “Retratamos a Guerra de Canudos e a história do sertanejo em conexão com a terra. É um texto primoroso, que trata da construção mesmo da nossa identidade, narrando a guerra, as mulheres, as crianças, o exército, a república monárquica, em um espetáculo poderoso”.

Amaury apresentou a peça de forma narrativa, com jogo de luzes, sombra e sonorização narrada pelo próprio artista. Em turnê pelo Brasil desde setembro de 2022, ‘A Luta’ já rendeu prêmios, como melhor performance para Amaury Lorenzo e melhor iluminação para o técnico Ricardo Meteoro. “Esta peça serve pra gente entender de fato de onde a gente vem. Este discurso de que o nosso país é pacífico não é totalmente verdade. A nossa história é uma história de muito sangue, e é importante a gente saber de onde a gente vem pra gente entender pra onde vamos”, completa.

Questionar e repensar. Assim a peça ‘Estupendo Circo di SóLadies’ tomou o auditório B do Ópera, na noite de 06 de novembro. A história traz três palhaças que, cansadas da vida no circo, propõem a adaptação de cenas clássicas do circo tradicional, da música e da poesia. O espetáculo nasceu de uma demanda. “A gente criou o grupo porque não tinha mais espaço na época para mulheres palhaços, porque o cenário da palhaçaria ainda é muito masculino, cisgênero e branco”, explica Theo Oliveira, da Companhia. Um circo só de ladies? Nem tanto. Theo é ator não-binário e começou sua transição há alguns anos. A companhia transicionou junto, sempre com o foco em refletir lugares e discursos comuns da sociedade. “Nossa peça busca refletir os privilégios que a gente carrega. Podemos nos aproximar dessas pessoas que são oprimidas nos comunicando com cada geração”.

Para todas as idades

O 51º Fenata reuniu gerações e famílias para prestigiar a arte. Do mais velho ao mais jovem, o Festival foi voltado às gerações que se nutrem pela importância do teatro. Que o diga Maria da Conceição Ribas Figueiredo. Com 96 anos, ela é a atriz mais antiga em atividade no Festival. Dona Netinha, como é conhecida, estava lá quando o Fenata abriu as cortinas do Auditório da Reitoria da UEPG, em 07 de novembro de 1973. De lá para cá, a mesma euforia, criatividade e brilho nos olhos a acompanham. A edição de 2023 contou com uma peça escrita por ela. “A Praça” foi apresentada às pessoas idosas do Lar das Vovozinhas, com encenação dos alunos da Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati).

“Escrevi essa peça depois de ver um casalzinho grudadinho numa procissão”, descreve. Os anos de contribuição foram reconhecidos e, na noite de encerramento, dona Netinha foi homenageada. Do seu lugar na plateia, por conta da dificuldade na mobilidade, ela emocionou com o discurso. “Eu quero agradecer os professores de teatro da UEPG que acreditaram em mim, me estimularam e me fizeram chegar até aqui. Aqui vocês veem a Maria, vulgo Netinha. Muito obrigada pela salva de palmas”, sorri.

Por falar em choque de gerações, a homenagem foi entregue por Joaquim Schiavo, de nove anos – o ator mais jovem a se apresentar no Fenata de 2023. Ele acompanhou os pais, Igor e Karla, nas apresentações de rua. “Vir ao Fenata é sempre uma troca muito legal”, comemora o pai. Só há vantagens de se criar o filho em meio ao teatro, segundo Igor. “Vamos possibilitar a ele uma criação envolvida com cultura, com arte, para que ele cresça de uma forma desconstruída e sem preconceitos”. O Fenata foi feito para todas as famílias. Thomas Rodolfo Brenner trouxe sua filha no primeiro dia de apresentações no Cine-teatro Ópera. Acompanhado da filha, ele ressalta a importância de mostrar a arte da palhaçaria para crianças desde a tenra idade. “Toda essa temática do Fenata é mágica e acaba saindo da rotina para gerar um encantamento, foi um presente participar. O Fenata vai fica guardado na nossa memória”, finaliza.

Para o vice-reitor da UEPG, Ivo Mottin Demiate, o Fenata completa meio século de vida e inicia um novo ciclo virtuoso sendo o festival mais longevo do Brasil. “Em 2024, a UEPG fará 55 anos na época do Fenata. Então, a partir de hoje já começamos a contagem regressiva. Espero que todos tenham aproveitado os espetáculos e que possamos nos encontrar no ano que vem com uma programação cada vez melhor”.

Com cusparada de palhaço, água, espuma e confetes jogados para o público, o 51º Fenata fecha as cortinas para a próxima edição, que em 2023 foi realizada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Institucional, Científico e Tecnológico (Fauepg); com patrocínio da Itaipu Binacional, do Serviço Social da Indústria (Sesi), da Belgotex do Brasil e da Unimed Ponta Grossa; com o apoio da Secretaria Municipal de Turismo de Ponta Grossa, do Conselho Municipal de Turismo de Ponta Grossa (ComturPG), da Secretaria Municipal de Cultura de Ponta Grossa, da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Paraná (Fecomércio) e do Serviço Social do Comércio (Sesc); além da parceria com Cresol, Planalto Select Hotel, Lumen Café + Gastronomia e Central Park Estacionamento; e promoção da RPC.

Texto: Jéssica Natal | Fotos: Aline Jasper, Amanda Santos, Domitila Gonzalez, Fabio Ansolin, Gabriel Miguel, Jéssica Natal, Luciane Navarro, William Clarindo


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