Do fundo do mar à busca por vida fora da Terra, Semana de Biologia da UEPG destaca múltiplos caminhos da profissão

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O que define a vida? Como ela surgiu? Estamos sozinhos no Universo? E qual é o papel de um biólogo diante dos desafios ambientais? Perguntas que acompanham a humanidade há séculos também fizeram parte das discussões da 38ª Semana Acadêmica em Estudos de Biologia (Saeb) da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Realizado entre os dias 8 e 12 de junho, o evento reuniu estudantes dos cursos de Bacharelado e Licenciatura em Ciências Biológicas em uma programação composta por palestras e minicursos teóricos e práticos.

Com o tema “Perspectiva 360°: A Multidimensionalidade do Biólogo”, esta edição trouxe diferentes abordagens sobre a área e destacou as várias possibilidades de atuação para quem escolhe a Biologia como caminho profissional. A abertura ocorreu na segunda-feira (8), no Centro Integrar do Campus Uvaranas. Pelo segundo ano consecutivo, a organização da Saeb ficou sob responsabilidade dos próprios estudantes.

Segundo o coordenador do evento e professor da Licenciatura em Biologia, José Fabiano Costa Justus, a programação deste ano foi pensada para representar essa diversidade. “Porque vocês, enquanto biólogos, a hora que estiverem passeando com qualquer amigo que não é da área, ele vai olhar para uma plantinha e perguntar: ‘Como é o nome dessa árvore?’. Vai olhar para uma rãzinha no chão e perguntar ‘que espécie de sapo é esse?’. Pelo simples fato de vocês terem feito Biologia, vocês têm que saber sobre tudo o que está vivo”, brincou.

Representando a comissão organizadora da Saeb, a estudante Fernanda Jampier Colodel, do 4º ano da Licenciatura em Biologia, explicou a escolha. “Eu não vejo um tema melhor do que ‘Perspectiva 360°’, porque a biologia está em todos os lugares. Desde uma célula até o maior ecossistema que tiver ali, a Biologia está envolvida”, afirmou. A aluna reforçou que a formação do biólogo também envolve o papel de educador. “Um biólogo não é só um cientista, mas também muitas vezes um professor que está na sala de aula ensinando Biologia. E vocês também, do bacharel, ensinam as pessoas. Um biólogo também está constantemente ensinando”, afirmou.

Para o vice-reitor da UEPG, professor Ivo Mottin Demiate, a participação discente na construção do evento representa uma das características mais importantes da universidade: a possibilidade de vivenciar experiências que ultrapassam a sala de aula. “O evento é feito para os estudantes, e chama a atenção ser a 38ª semana. Parabenizo os cursos de Biologia aqui da UEPG pela resiliência, pela persistência de manter essas semanas sendo organizadas. A gente sabe quanto trabalho isso dá, a preocupação com o público, com as palestras, com quem chamar”, destacou. Ao lembrar da própria trajetória na graduação, o vice-reitor ressaltou que a formação universitária envolve diferentes experiências além das atividades tradicionais de ensino. “Eu era um aluno que se dedicava, ia bem nas provas e um dia uma professora me disse: ‘Por que você só se preocupa em ir bem nas provas?’. Eu fiquei pensando, porque estava com uma cabeça de quem estava no colégio ainda. Mas não é só isso, nós estamos aqui para sermos profissionalizados”, contou. Segundo ele, eventos como a Saeb contribuem para ampliar o conhecimento dos estudantes e prepará-los para os desafios da profissão.

A diversidade de temas é uma das marcas do evento, conforme destacou o chefe do Departamento de Biologia Geral da UEPG, professor Giovani Marino Fávero. “Temos no nosso curso a semana acadêmica mais antiga, consecutiva, da Universidade. O que é bacana é que todo ano os temas mudam, fica um pouquinho a cara do professor, mas quem toca mesmo são vocês [estudantes]. Isso que é o legal, o diferencial”, afirmou. Segundo ele, a amplitude da área permite que cada edição tenha uma identidade própria, mantendo uma tradição de quase quatro décadas. “A biologia tem essa vantagem da variedade de temas que a gente pode transitar. Se quiser relacionar com a economia, falar de guerra, origem da vida, vida fora da Terra, proteínas, você pode variar do que quiser imaginar. Então a gente sempre fica na expectativa de ter uma semana diferente. E que ela continue dessa maneira: inovadora no conhecimento, no conteúdo e sempre atrativa”.

Do fundo do mar ao espaço

A primeira palestra da programação trouxe aos estudantes uma discussão que amplia os limites tradicionais da biologia. Egressa da Licenciatura em Ciências Biológicas da UEPG, a professora Caroline Antunes Rosa falou sobre como os biólogos podem contribuir para uma das dúvidas mais antigas da humanidade: a existência de vida fora da Terra. “Como o tema da Saeb desse ano é a multidimensionalidade do biólogo, eu achei legal trazer esse tema porque a gente pode ver como um biólogo pode atuar bem fora da sua área, fora do laboratório como a gente está acostumado a observar”, explicou.

A professora apresentou a astrobiologia como uma área que reúne diferentes campos do conhecimento para estudar a origem, evolução e possibilidade de existência da vida em outros ambientes do universo. Segundo Caroline, a participação dos biólogos nesse campo está relacionada principalmente à compreensão da própria vida terrestre, que funciona como referência para a busca por organismos em outros planetas. “Para a gente começar a estudar astrobiologia, começar a procurar vida em outros planetas, primeiro nós temos que entender o que é vida. E a gente vai partir do único modelo que nós conhecemos, que é o que são os seres vivos terrestres”, destacou. A palestra também abordou conceitos relacionados à composição química dos seres vivos, à evolução e às tecnologias utilizadas para identificar possíveis sinais de vida em outros ambientes.

Enquanto uma área da ciência procura vida fora da Terra, outra estuda um ambiente que ainda tem muita coisa a ser descoberta: os oceanos, que também foram contemplados na programação da Semana. A bióloga e educadora ambiental Angeline Weisheimer, formada pela UEPG, ministrou de forma online a palestra “Do fundo do mar ao centro das decisões”, em que compartilhou sua trajetória com os estudos em ecossistemas costeiros e a atuação em gestão e licenciamento ambiental portuário. Ao longo da conversa, discutiu como a cultura oceânica conecta ciência, comunidades tradicionais, conservação da biodiversidade e os processos de tomada de decisão que influenciam diretamente o litoral. Em relato publicado após a atividade, Angeline destacou a oportunidade de retornar à instituição. “Foi uma alegria reencontrar, mesmo que virtualmente, a universidade onde comecei minha caminhada na Biologia. Obrigado à organização da Saeb 2026 pelo convite e a todos os estudantes que participaram. Afinal, compreender o oceano é também compreender nosso papel na sociedade”, escreveu.

Mais do que discussões científicas, a Semana também trouxe reflexões sobre o papel social do biólogo e sua responsabilidade diante dos desafios ambientais contemporâneos. Ao comentar o tema da palestra de abertura, o diretor adjunto do Setor de Ciências Biológicas e da Saúde (Sebisa) da UEPG, professor Gonçalo Cassins Moreira do Carmo, relacionou a busca por vida fora da Terra com a necessidade de refletir sobre a preservação do planeta. “A gente só tem esse lugar. E é uma pena que parece que boa parte do mundo não entendeu isso. A gente vê conflitos o tempo todo: disputas, ameaças nucleares, degradação de todo tipo, o que agride radicalmente o meio ambiente, que é o lugar onde a gente está”, comentou. Para Gonçalo, a formação em Ciências Biológicas deve estar acompanhada da capacidade de levar essas discussões para diferentes espaços da sociedade.

A professora Marcia Helena Appel, chefe do Departamento de Biologia Estrutural, Molecular e Genética (Debiogem) da UEPG, também destacou a relação entre a biologia e a preocupação com todas as formas de vida. Farmacêutica de formação, ela contou que sua trajetória profissional foi marcada pelo contato e amizade com biólogos construídas dentro da Universidade. “Eu me aproximei dos biólogos porque eu entendo que vocês escolhem a profissão de vocês porque basicamente querem ser pessoas boas. Boas para o ambiente, boas para as plantinhas, para os fungos, para as bactérias, para os bichinhos, para tudo o que é vivo”, declarou durante a abertura do evento. Segundo ela, essa característica deve estar acompanhada de uma sólida formação profissional. “Quero que vocês continuem sendo assim, mas que vocês se profissionalizem muito para poderem fazer a diferença que vocês podem fazer”.

Texto: João Pizani | Fotos: Fabio Ansolin


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