A semana de acolhida aos calouros da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) encerrou com a arrecadação de duas toneladas de alimentos não-perecíveis e produtos de higiene no Trote Solidário da Associação Atlética Acadêmica das Engenharias (AAAEE) Los Bravos, em parceria com os centros acadêmicos (CAs). A ação reuniu os oito cursos que integram o Setor de Engenharias, Ciências Agrárias e de Tecnologia (Secate) e mobilizou cerca de 500 estudantes, que percorreram diversos bairros de Ponta Grossa ao longo de dois dias, batendo de porta em porta em busca de doações.
Desde que começou a ser realizada, há 15 anos, a ação já arrecadou quase 19 toneladas de donativos. O presidente da Los Bravos e acadêmico de Engenharia de Computação, Gustavo Colman, conta que o Trote Solidário surgiu em 2011 no Centro Acadêmico de Agronomia e em 2019 a atlética se juntou à organização, passando a englobar todos os cursos do Setor. Segundo ele, o material coletado será destinado ao Banco de Alimentos da Secretaria Municipal de Família e Desenvolvimento Social de Ponta Grossa. “Os alimentos passam por uma avaliação para ver se não tem nenhum produto vencido ou estragado. Depois vão montar as cestas e a gente vai fazer uma ação em alguma comunidade para a entrega”, afirma.
O empenho dos estudantes com o Trote Solidário não se limitou aos dois dias de arrecadação. Gustavo conta que a ação deste ano começou a ser organizada em dezembro e, em janeiro, o grupo foi recebido pelo reitor da UEPG. “Nessa reunião nós conseguimos total apoio da Universidade, não só no trote, mas em vários projetos que temos pela frente”, comenta. Na sua avaliação, a ação tem melhorado a cada ano, com a dedicação dos novos alunos e o apoio da comunidade. “Estamos bem contentes. De início, parece ser uma turma bem animada e que se demonstrou bastante proativa. Nós recebemos muitos comentários positivos em todos os bairros que a gente foi, e o pessoal ajudou bastante”, destaca. “É muito gratificante poder fazer a diferença com uma ação tão bacana e de uma maneira bem descontraída. A Los Bravos e os CAs agradecem a todos que ajudaram de alguma forma”.
Presidente do Centro Acadêmico de Zootecnia, Maria Rita Noimann acompanhou os calouros durante a coleta nos bairros Ronda e Chapada. Para ela, o trote solidário une acolhimento aos novos alunos com a responsabilidade social da Universidade. “A proposta é fazer com que os calouros se sintam confortáveis e, ao mesmo tempo, contribuir com a comunidade, ajudando pessoas que às vezes não têm condições de comprar alimentos ou materiais de limpeza. Cada curso se reveza nas regiões da cidade para que a gente consiga percorrer Ponta Grossa inteira”, explica. Entre os calouros de Zootecnia estava Manuela Gabriel Choma, que destacou a alegria de participar da ação em seus primeiros dias como universitária. “Ingressar na UEPG é um sonho realizado. Depois de dois anos estudando, estar aqui fazendo o que eu sempre quis é muito gratificante. Participar de um projeto que ajuda o próximo me deixa muito feliz”, afirma.
Integrante do grupo que percorreu os bairros Órfãs e Jardim Carvalho, Paola Albach relata o apoio que os novos alunos receberam dos veteranos. “Eles explicaram tudo que a gente devia fazer e ajudaram aqueles que tinham mais vergonha. Mas eu sou uma pessoa que gosta muito de conversar e, fazer isso por uma boa causa, é incrível, porque eu sei que eu estou fazendo a diferença. Mesmo sendo caloura, não a mente por trás desse projeto, foi uma coisa muito emocionante de viver”, comenta. Filha de egressa do mesmo curso, ela considera que o ingresso na UEPG é a realização de um sonho. “Minha mãe se formou em Engenharia Civil em 2006. Ela veio aqui comigo antes das aulas começarem e já me mostrou tudo. A UEPG é o que eu sempre pensava como modelo de universidade”.
Uma semana de boas-vindas
A coleta de alimentos fez parte da programação da Acolhida Institucional aos calouros, organizada pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae), que mobilizou quase 2 mil novos estudantes entre os dias 19 e 28 de fevereiro. A pró-reitora de Assuntos Estudantis, professora Ione da Silva Jovino, destacou a importância de situar os recém-chegados e informar os direitos e serviços que estão disponíveis para que eles deem prosseguimento na vida acadêmica. “A acolhida é um momento muito importante para nós, não só pelas informações passadas, mas pelo significado simbólico dela, que é a instituição se organizar para receber os alunos que estão ingressando e dizer: ‘Este é seu lugar, seja bem-vindo, que bom que você está aqui’, e se mostrar à disposição desse aluno para que ele possa permanecer e concluir o curso”, explica.
O reitor da UEPG, professor Miguel Sanches Neto, participou das cerimônias de acolhida e disse que o momento é de festa. “Estamos aqui para acolher todos e todas nessa nova jornada da Universidade. A cada ano, com o ingresso de novos alunos e alunas, nós nos reinventamos para poder atender a cada um e a cada uma na perspectiva de uma formação que seja técnica e humanitária ao mesmo tempo”, defende Miguel.
Caloura de Ciências Contábeis, Lorena Cuimbra Broniski destacou a importância da Acolhida Institucional. “Foi muito interessante. Falaram sobre projetos sociais e as políticas de inclusão necessárias para uma universidade pública de qualidade, já que muitos vieram de fora e não têm esse conhecimento, pois realmente assusta o fato de sair de uma escola e vir direto para a Universidade”, comenta. “Eu já tive o prazer de ser aluna da UEPG um tempo atrás e agora estou muito feliz de estar de volta em outro curso, que eu também quis muito e felizmente consegui passar no Vestibular. Agora vamos começar um novo ciclo.”
O ano letivo já iniciou com a estreia do café da manhã nos Restaurantes Universitários (RU), localizados nos Campus Centro e Uvaranas. A opção está disponível aos estudantes por R$ 1,90; o almoço e o jantar custam R$ 3,80. Animado com o início das aulas, Gustavo Marcondes de Castro, calouro do Bacharelado em Educação Física, foi um dos alunos que compareceram ao RU na primeira manhã de funcionamento. “Tava uma delícia o café da manhã, hoje teve até bolo de chocolate, eu fiquei impressionado. É importante chegar aqui e poder tomar um café da manhã para poder estudar bem e ter um bom desempenho durante o dia de aula”, comentou.
O vice-reitor da UEPG, professor Ivo Mottin Demiate, também acompanhou o café da manhã nos restaurantes universitários. “Era uma demanda que já havia no passado, a gente foi trabalhando para viabilizar e finalmente conseguimos, com a mesma lógica das outras refeições, ou seja, uma tarifa subsidiada num valor muito baixo e a completa gratuidade para alunos com maior vulnerabilidade socioeconômica”, afirma. Para ele, o café da manhã é uma política de permanência para garantir animação e disposição aos estudantes. Ele também participou da Acolhida Institucional aos calouros. “A gente vê nos olhos deles a curiosidade, o interesse, e esse evento busca orientar esses jovens que estão chegando aqui e que daqui a pouquinho estarão se formando, o que é o nosso grande desejo”, expressa o vice-reitor.
Cursos se organizam para receber calouros
Como complemento à programação institucional, vários cursos também planejaram acolhidas próprias. No curso de Letras, veteranos prepararam um café comunitário e promoveram um tour pelo Campus para apresentar a estrutura da Universidade. “Estou com as expectativas muito altas para a participação dos novos alunos, em todos os sentidos, tanto em aula, quanto na pesquisa e extensão. A gente fica com coração quentinho de ver o pessoal chegando e fizemos uma acolhida muito calorosa, dando aquele norte para todos os calourinhos”, relata a estudante Juliana Krol.
No curso de Música, veteranos já receberam os novos alunos com uma palhinha do talento e da diversidade musical presente no curso. Com vários instrumentos e um microfone à disposição, o repertório reuniu músicas estrangeiras e muitos clássicos da música popular brasileira. Geraldo Pietrochinski foi o primeiro que comandou o vocal, isso depois de uma entrada que levou todos os alunos ao riso, pensada especialmente para quebrar o gelo e aproximar os calouros do ambiente universitário.
“A gente chega meio tímido, porque cada um tem um estilo e existe o receio de que os outros não gostem. Então eu quis trazer um personagem fora do padrão, algo caricato, para mostrar que aqui ninguém precisa ter vergonha. A ideia era justamente se divertir e deixar o pessoal mais à vontade”, conta. Geraldo explica que a proposta foi criar uma abertura leve e bem-humorada, inspirada na personagem Velha Surda do programa A Praça É Nossa e na banda Geriatricus. “Eu sempre fico pensando em como agradar todos os estilos e trazer músicas que todo mundo conheça. Aos poucos, a vergonha vai indo embora, os estilos aparecem, todo mundo acaba se soltando e é coberto de aplausos. Isso é muito bonito de ver”.
O aluno também relembra o receio que sentia ao subir ao palco quando era calouro e como a vivência no curso contribuiu para diminuir a timidez. “O curso me abraçou de um jeito que eu pensei: ‘eu tô em casa e me sinto bem aqui’, então a vergonha foi saindo aos poucos. Já era menor no segundo ano, no terceiro era quase escassa e no quarto eu tô sem vergonha”. Os quatro anos de graduação também contribuíram para aumentar o repertório. “A gente está exposto a vários estilos e instrumentos, se depara com coisas novas e a curiosidade vem, porque a gente tá no meio acadêmico, então o conhecimento nunca é demais. Assim, a gente vai se formando música.”
Os calouros de Engenharia de Alimentos participaram de diversas atividades de acolhida organizadas pelos estudantes do Programa de Educação Tutorial (PET), começando com um tour pelos blocos e com uma apresentação da estrutura do curso. Em seguida, foram servidas pizzas produzidas na padaria do próprio curso, uma atividade que já se tornou tradição. “Além de ser uma forma de agradar os calouros com uma boa pizza, também conseguimos mostrar um pouco da estrutura de laboratórios, principalmente a padaria. Ao longo do curso eles vão entender que é mais do que um alimento, é também um processo”, destaca Gabriela Tkaczuk Silva, aluna do quarto ano. A programação encerrou com um curso de segurança em laboratório, no qual os novos alunos puderam conhecer as principais normas de segurança e ter contato com utensílios que utilizarão ao longo da graduação.
A tradicional Dinâmica dos Recicláveis, promovida pelo Centro Acadêmico de Engenharia de Materiais (Caem), foi uma das atividades de acolhida dos novos alunos. “O intuito é a integração, não só calouro fazer amizade com calouro, mas com veteranos de todos os anos, promover contato entre eles e o espírito de equipe”, explica o diretor cultural do Caem, Pedro Schnitzler. Durante a atividade, os novos alunos se dividiram em equipes, tiveram um minuto para separar itens recicláveis e depois foram desafiados a pensar numa finalidade para aquilo e elaborar um produto funcional. “É para testar a criatividade deles, incentivar a resolver um problema de forma rápida com o que tem à disposição”, complementa a diretora de marketing Elisa Matoso.
Na manhã da última sexta-feira (27), como parte do processo de acolhida, os calouros de Agronomia e Zootecnia foram conhecer a Fazenda Escola Capão da Onça (Fescon), importante espaço de ensino-aprendizagem para os cursos. Eles foram recepcionados pelo coordenador do espaço, professor Orcial Bortolotto, que disse que essa visita é um momento muito oportuno para demonstrar o espaço que vai ser uma parte fundamental no processo de formação dos alunos. “É aqui na Fazenda onde eles poderão conhecer práticas e adquirir experiências diretamente no campo, seja na elaboração de iniciação científica, de trabalho de conclusão de curso (TCC), já que muitos começam na Fescon o processo de progressão na carreira científica”, ressalta. Ele destaca ainda as oportunidades de estágio que a Fazenda Escola proporciona no manejo das mais diversas atividades, como safra, solo, fertilidade, cultura, controle de pragas, entre outros. “A Fazenda, dentro da Agronomia, é um grande diferencial porque vai além da sala de aula, da formação de altíssimo nível, eles também têm aqui a vivência prática que é algo impar na formação hoje”, finaliza. Já os alunos de Zootecnia puderam acompanhar o manejo dos bovinos leiteiros, ovino e suinocultura, principalmente da criação do Porco Moura, uma das maiores especialidades do curso na Fescon.
Na noite de sexta, foi a vez do curso de Medicina realizar a tradicional Cerimônia do Jaleco, no qual os calouros recebem, pela primeira vez, a roupa fundamental durante os seis anos de curso para atuação nos laboratórios e nos hospitais universitários e demais espaços de saúde de Ponta Grossa. O evento contou com a participação do vice-reitor da UEPG, professor Ivo Demiatte, diretor adjunto do Sebisa, professor Gonçalo Cassins Moreira do Carmo; e dos professores de Medicina: Fabiana Postiglioni Mansani, Gilberto Baroni, Ricardo Zanetti Gomes, Mario Montemor e do professor aposentado Cesar Roberto Busato. Um dos alunos que recebeu o seu jaleco durante a cerimônia foi Oséias Vladimir Gonçalves Cordeiro, filho do servidor da Pró-Reitoria de Assuntos Administrativos (Proad) José Vladimir Gonçalves Cordeiro.
Junto com o mês de fevereiro, a programação da Acolhida Institucional terminou no sábado (28), com uma visita dos calouros de Arquitetura e Urbanismo à Associação de Agricultura Ecológica de Ponta Grossa e Região (Asaeco), localizada no distrito de Itaiacoca, com a participação de mais de 50 alunos. A ação integra um projeto de extensão, vinculado ao Departamento de Engenharia Civil, que oferece apoio técnico e acadêmico para viabilizar construções em taipa. Segundo a coordenadora, professora Nisiane Madalozzo Wambier, o projeto realiza ações de cooperação para atender à demandas da comunidade. “Uma coisa que eles não têm aqui, por exemplo, é uma planta com a identificação de cada construção. Outra coisa que a gente fez hoje é o mutirão para ajudar a construir e montar esse espaço, porque como é uma associação que visa ensino e aprendizado, eles precisam ter espaço para receber as pessoas”, explica.
O presidente da Associação, Antônio Ostrufk, conta que a entidade foi criada para resolver problemas da agricultura, oferecer formação e orientar sobre a não necessidade do uso de veneno. Ele destaca a importância de parcerias como a UEPG. “Isso enriquece a luta e faz com que a gente acredite mais e veja que não está sozinho. Muitas vezes eu fico pensando: ‘Mas será que isso tem valor?’. De repente o pessoal da Universidade procura a gente para fazer parceria e isso deixa a gente muito feliz”, afirma.
Férias de muito estudo
Para a acadêmica de Medicina Julia Kapp Lepinski, o período de férias foi época de estudar – e muito. Durante quatro semanas, ela estagiou em Reumatologia Pediátrica no Children’s Hospital de Los Angeles, um dos melhores hospitais infantis dos Estados Unidos. “Foi uma experiência que me transformou muito. Eu voltei com um olhar diferente para a prática médica”, conta. “Lá, eu vi o que significa discutir um caso com profundidade, questionar condutas, buscar literatura atualizada antes de tomar decisões e nunca se acomodar com o ‘sempre foi feito assim’. Isso mudou minha postura como estudante. Passei a estudar com mais intenção, a querer entender o porquê das condutas e a me envolver mais ativamente nas discussões clínicas”.
A aluna conta que retorna transformada e com um senso maior de responsabilidade. “No CHLA, mesmo como observadora, era impossível não sentir o peso das decisões e o cuidado colocado em cada detalhe”, explica. A experiência modifica a forma como ela realiza as práticas do curso aqui no Brasil, com maior atenção, presença e consciência. “Algo que me marcou muito foi a forma como a equipe se comunicava com as famílias, com clareza, paciência e respeito. A criança nunca era só um diagnóstico, era sempre alguém inserido em uma história, em um contexto familiar. Eu tento trazer isso para minha prática diária aqui, cuidando da forma como explico, da maneira como escuto e da sensibilidade com que me posiciono”, diz. “Talvez o que eu mais tenha trazido tenha sido maturidade. Maturidade para estudar com mais profundidade, para valorizar o trabalho em equipe e para entender que ser uma boa pediatra envolve muito mais do que conhecimento técnico, envolve presença, empatia e responsabilidade”, destaca.
Para além das diferenças entre a prática nos dois países, Julia também percebeu semelhanças com o cotidiano do Hospital Universitário Materno-Infantil da UEPG (Humai). “Foi muito bonito perceber que, apesar de toda a estrutura e tecnologia do CHLA, muitos valores que eu admirei lá também estão presentes no cuidado que vejo no Humai. A atenção à criança como um todo, o esforço em oferecer um atendimento humanizado e a importância do trabalho em equipe são pontos que se assemelham muito. Isso me deu ainda mais orgulho da formação que estou construindo aqui e reforçou que excelência não depende apenas de recursos, mas de postura, compromisso e humanidade”.
Texto: Aline Jasper, André Packer, Gabriel Spenassatto, João Pizani e Tierri Angeluci, com apoio de Larissa Didres de Souza | Fotos: Aline Jasper, André Packer, Erica Fernanda, Fabio Ansolin, Gabriel Spenassatto, João Pimentel, João Pizani, Larissa Godoy, Tierri Angeluci, William Clarindo e arquivo pessoal da entrevistada


























































































































































