Pesquisadora da UEPG propõe caminhos para espaços antirracistas

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Os passos de Merylin Ricieli dos Santos vêm de muito longe. E é assim que a pesquisadora, historiadora e extensionista atua na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG): com compromisso. Após defender o trabalho de pós-doutorado, a egressa da graduação e do Mestrado atualmente desenvolve trabalhos para uma educação museal antirracista, no Museu Campos Gerais (MCG). Ao lado de colegas e com uma trajetória dedicada na pesquisa, ela atua para que espaços museais sejam agentes de memória, patrimônio e interlocução antirracista.

Pesquisa

Defendido em dezembro do ano passado, pelo Programa de Pós-Graduação em História (PPGH), o trabalho intitulado Caminhos Museológicos para uma Educação Patrimonial Antirracista teve duas frentes: uma de pesquisa, outra de extensão. Na pesquisa, Merylin se dedicou a analisar 1700 fichas de matrícula e históricos da antiga Faculdade de Filosofia, uma das instituições que em 1969 se integrou à UEPG. O objetivo foi ver quais dos alunos e docentes da época eram negros. “Foi um processo bem vagaroso, de analisar e fazer anotações, para ver se havia indícios ou uma descrição a respeito da questão racial desses indivíduos”, relembra. A conclusão do trabalho foi que havia um percentual muito baixo de pessoas negras no ensino superior naquele período. “O processo naquela época não era de autodeclaração, então, a documentação que eu encontrei era, por exemplo, de médicos dizendo qual era o perfil fenotípico daquele sujeito. Não era o sujeito dizendo sobre si”.

Com os dados, a pesquisadora, orientada pelo professor Ilton César Martins, fez um mapeamento de quem eram esses alunos da Faculdade. “Percebemos que, por exemplo, essas questões [raciais] se cruzavam com outras. A gente conseguiu ver, por exemplo, um indivíduo que veio da região nordeste, que tem um percentual hoje, na contemporaneidade, muito maior de indivíduos negros; pessoas aqui no Paraná, pretas, que vieram de Tibagi. Então, a gente consegue ver esse tipo de nuance que só a pesquisa documental consegue trazer”, descreve. E como as pessoas não-brancas eram descritas nas fichas? Merylin responde: “muitos eram descritos com outras palavras. Hoje, a gente não heteroidentifica, por exemplo, o indivíduo como moreno. Mas naquela época, encontramos denominações como moreno, moreno claro, pardo, pardo médio, castanho, preto e escuro, então, todas essas denominações, a gente sabe, são para pessoas que não estavam inseridas na ótica da branquitude”. A pesquisa serviu para compreender melhor um período do ensino superior em uma época que a UEPG ainda não existia, a partir de 1950. “Um período bastante direcionado para indivíduos brancos, pessoas no topo da pirâmide econômica, o que se repercute até hoje, e essa pesquisa refletiu a questão da falta de oportunidade e a questão do racismo sistêmico. Conseguimos ver, também, questões interseccionais, em que mulheres negras estavam mais associadas aos cursos de docência. Muitas mulheres deixavam a faculdade depois que anexavam a certidão de casamento, por exemplo”, complementa.

Extensão

Na perspectiva da extensão, Merylin atua com processos de formação com um recorte racial. A pesquisadora destaca o Rota Preta PG, que já atendeu mais de 200 pessoas. “Ofertamos atividades aos sábados e finais de semana, com grupos que se inscreveram previamente. O Rota Preta pensa os percursos urbanos como espaços que fazem referência à presença negra na região”. Merylin cita a Catedral de Ponta Grossa como exemplo de um ponto da Rota Preta: “é um espaço que teve uma presença negra na construção desse prédio. O mestre de obras, Lúcio Alves da Silva, foi o responsável por parte da construção de uma das cúpulas. Então esse projeto dá cor para determinados personagens da história”, conta. No âmbito do pós-doutorado, ela trabalhou no projeto Museu Escuta, com o professor Robson Laverdi. “Trazíamos determinados indivíduos para poder trabalhar com história oral, para que eles pudessem trazer suas memórias, suas narrativas, e a gente utilizar essas narrativas para poder produzir sentidos históricos”. Na extensão, Merylin também trabalhou com a exposição Africanidades e Máscaras, como curadora.

Africanidades é um conceito de Petronilha Beatriz Gonçalves Silva, que tem relação com tudo aquilo que faz referência à cultura africana, e é produzido em território brasileiro. “A gente teve a ideia de trazer essa exposição, usamos o acervo do Museu que tinha de máscaras, que vieram de continente Africano, e a gente colocou tudo nesse mesmo espaço, sempre tentando integrar a comunidade ao Museu”. O trabalho junto ao MCG busca fazer referência às culturas negras e ao mesmo tempo integrar a memória, “porque às vezes o museu é visto como espaço de memória hegemônica, um espaço de memória exclusiva da população eurocentrada. Nossa ideia é desconstruir isso”. Como parte deste trabalho, Merylin trabalhou na produção da primeira edição do Museu no Pátio, que exaltou a cultura afrobrasileira.

O lugar como pesquisadora 

Merylin é doutora em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina; mestre em Linguagem, Identidade e Subjetividade pela UEPG; e graduada em Licenciatura em História pela UEPG. Em todo esse tempo, ela sempre se dedicou a pesquisar aspectos de raça e gênero. “Na graduação, trabalhei com concursos de beleza negra no Clube 13 de Maio, para ver como as mulheres se viam a partir desses eventos. Depois, no mestrado, eu trabalhei com os discursos que queriam interditar o Clube, vendo como aquele agente não era reconhecido como espaço urbano. E no doutorado, eu trabalhei com o Clube enquanto um território negro, apoiei o debate em como as pessoas se relacionavam com esses espaços, mencionando escolas de samba, terreiros, espaços de religiões e matrizes africanas e afro-brasileiras e rodas de samba”. No pós-doc, Merylin realizou o objetivo de direcionar a discussão sobre raça dentro de um ambiente de Museu.

Todas essas escolhas de pesquisa também têm um caráter pessoal, segundo ela. “Primeiro, uma questão identitária, porque eu sou uma mulher negra, que reconhece toda a importância de se discutir isso, não apenas no sentido de poder me constituir, mas também usar esse lugar para fazer a diferença”. Colaborar com uma educação antirracista é também contemplar outras mulheres na escrita, na fala e no discurso, segundo ela. “Então, é um tema que me toca, que me move. A universidade pública precisa trazer retornos para a comunidade, então nesse sentido eu acredito que o retorno que eu consigo fazer é falando sobre isso, dando curso sobre isso, desenvolvendo eventos sobre isso”. Um museu decolonial. É assim que Merylin defende a forma com que os espaços museais devem ser: “todos os espaços de memória precisam pensar nessa ótica da descolonização, porque a gente tá num momento em que mais de 50% da população brasileira se declara preta ou parda. E esses indivíduos também precisam ser postos, vistos, nesses lugares de memória”, finaliza.

Texto e fotos: Jéssica Natal


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