A carreira do engenheiro e pesquisador Luiz Miranda de Lima é um desses exemplos de como o conhecimento produzido nas universidades pode se traduzir em inovação e impacto social. Egresso da graduação e do mestrado em Engenharia de Materiais da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), ele trilhou um caminho dedicado à pesquisa com materiais sustentáveis, uma trajetória que o levou até a Holanda, para atuar no desenvolvimento de uma solução tecnológica com potencial para reduzir a pegada de carbono na indústria da construção civil, setor que é responsável por 8% das emissões globais.
Ainda durante a graduação, dois momentos importantes definiram a relação do Luiz com esse tema de pesquisa. O primeiro, logo no início do curso, foi a participação em um dos projetos de pesquisa do professor Sidnei Pianaro, na área de concretos refratários. “Algo que começou em 2009 e que eu não imaginava que levaria para o restante da minha carreira”, lembra. O segundo foi o intercâmbio acadêmico na Alemanha, pelo programa Ciências sem Fronteiras. Junto a outros dois colegas de Engenharia de Materiais e um de Engenharia de Computação, Luiz integrou o primeiro grupo de graduandos da UEPG a fazer mobilidade internacional pelo programa.
Durante 12 meses, eles participaram de atividades teóricas e práticas no Instituto Fraunhofer, instituição de renome na pesquisa com materiais. “Foi o primeiro lugar em que eu tive contato com a pesquisa aplicada, em que as empresas buscam inovações em tecnologia dentro da investigação científica para resolver problemas práticos do dia a dia. E isso foi um divisor de águas na minha carreira; eu voltei com a visão de que isso era algo que eu queria fazer para o meu futuro”, destaca.
De volta ao Brasil, foi hora de colocar em prática o conhecimento adquirido e dar os primeiros passos no mercado de trabalho. No último ano do curso, Luiz passou a atuar em uma empresa local, a Smart Sistemas Construtivos (hoje, Espaço Smart), que desenvolve materiais sustentáveis para a construção civil, oportunidade que acabou se estendendo por cinco anos, sempre em estreita parceria com a UEPG. Foi nesse período que ele concluiu o mestrado, com um projeto de pesquisa alinhado ao trabalho que vinha executando no seu dia a dia na empresa.
Doutorado e atuação profissional na Holanda
Em 2019, veio a decisão de continuar o percurso acadêmico e ingressar no doutorado fora do país. Dessa vez, o destino foi a Holanda, na Universidade Técnica de Delft, onde ele pôde aprofundar as pesquisas na sua área de expertise e entrar em contato com outros pesquisadores que possuem o mesmo foco.
“O doutorado tem duração de quatro anos. Eu não consegui concluir em quatro, porque é muito pesado, então, no quinto ano, tive que buscar um emprego para conciliar com os estudos”, conta. Foi justamente nesse momento que surgiu a oportunidade na startup holandesa Paebbl (pronuncia-se “pé-bêl”) para atuar como gerente de laboratório. “Foi um misto de sorte e de ser a pessoa certa na hora certa”, lembra. “É uma empresa que fica na cidade ao lado de onde eu moro e que estava buscando um pesquisador na área de materiais cimentícios”.
A Paebbl tem como foco o desenvolvimento de um cimento que utiliza CO₂ na sua composição, “aprisionando” o gás por tempo indeterminado em estruturas sólidas. Isso significa uma mudança de paradigma na fabricação de concreto: de um processo que emite gás de efeito estufa na atmosfera para um que captura esse mesmo gás.
A tecnologia utiliza, entre outras substâncias, um tipo de mineral que naturalmente absorve o CO₂, a olivina. “Nós descobrimos uma forma de injetar CO₂ na olivina de forma muito rápida, então ele fica preso nela para sempre”, explica Luiz. O produto final é um pó fino que substitui o cimento convencional na mistura do concreto; um cimento que reduz a pegada de carbono das construções.
No início de 2026, a Paebbl foi contemplada no projeto C-SINC (Concrete products through sustainable and innovative carbon-storing binders) com um financiamento de 4 milhões de euros para liderar um consórcio europeu que atuará na “descarbonização” da indústria da construção. A proposta é desenvolver alternativas ao clínquer – uma das principais matérias-primas do cimento convencional – e fazer com que as estruturas feitas de concreto sejam depósitos de carbono. Luiz acompanhou todo o projeto e agora coordenará as próximas etapas. “O projeto C-SINC visa utilizar pesquisa de base fundamental para demonstrar como nosso produto pode ser implementado sem riscos em projetos de grande escala. Em nosso projeto, contamos com quatro instituições acadêmicas, cada uma focada em uma área específica do desenvolvimento de concreto”.
Na prática, com o C-SINC, a inovação desenvolvida pela Paebbl pode ganhar uma espécie de atestado de qualidade. “O mercado da construção civil é extremamente conservador, o que representa um grande desafio para nós. A implementação de novos produtos em elementos estruturais precisa ser constantemente validada em relação à performance e à durabilidade, uma vez que estes elementos serão utilizados em projetos de alta responsabilidade. Muitos materiais cimentícios já estão contemplados em normas nacionais e internacionais, e possuem sua produção e seu uso harmonizado e controlado. Quando trazemos um produto inovador, estamos falando de uma necessidade de alteração e ampliação da abrangência dessas normas, mas primeiramente precisamos demonstrar que nosso produto se comporta da mesma maneira, ou de maneira superior, ao que há hoje no mercado”, completa.
Documentário com estrela de Game of Thrones
Em 2025, a Paebbl ganhou destaque internacional no minidocumentário “Inventions That Could Help Heal the Planet” (Inovações que podem ajudar a curar o planeta), produzido pela Bloomberg, grupo de mídia com foco no mundo dos negócios e finanças. O documentário é apresentado pelo ator Nikolaj Coster-Waldau, conhecido por interpretar o personagem Jaime Lannister na série Game of Thrones. Luiz foi um dos entrevistados e explicou o processo de fabricação do material desenvolvido pela startup.
“Eu fiquei sabendo que teria a gravação do documentário, mas não sabia quem seria o entrevistador até uma semana antes. Aí eles me falaram: ‘é o Nikolaj’, e eu: ‘mas quem é Nikolaj?’. Acho que eu não fiquei tão nervoso na entrevista porque não tinha a referência de que ele é um ator super famoso”, lembra. O documentário, explica Luiz, foi importante para garantir mais visibilidade para a startup, algo que, para esse modelo de negócio, é essencial para atrair investidores. Assista aqui.
O papel da UEPG
Natural de Guarapuava, Luiz se mudou para Ponta Grossa com o objetivo de cursar a graduação na UEPG, mas acabou ficando por 10 anos. Esse período, segundo ele, foi determinante para sua carreira atual. “Eu sou muito grato à UEPG, à cidade de Ponta Grossa. Foi essencial para minha formação como profissional, como adulto. A UEPG sempre me deu abertura para que, desde o primeiro ano de graduação, eu conseguisse me inserir em projetos de pesquisa e de extensão”, conta.
Sobre o curso de Engenharia de Materiais, em especial, Luiz destaca que pôde contar com toda a estrutura para ter uma formação de qualidade, além de ser frequentemente incentivado a participar de eventos de pesquisa. Outro ponto elogiado foi o corpo docente: “os professores iam além da parte acadêmica, eram pessoas que efetivamente se preocupavam com os alunos. Eu acho que isso é um ingrediente a mais para que o aluno se interesse pelo curso”.
Dicas sobre o curso
Para os estudantes interessados em cursar Engenharia de Materiais, ou que acabaram de ingressar na graduação, Luiz deixa duas dicas: apostar no aprendizado de idiomas (mesmo que não tenham interesse em atuar fora do país) e procurar se desenvolver para além do conteúdo visto em sala de aula, ou seja, participar ativamente de atividades de pesquisa e extensão. “Na iniciação científica, você desenvolve muitas outras habilidades, desenvolve o senso crítico de pesquisa, a capacidade de ver problemas de outra forma. Essas atividades são essenciais para que você seja um profissional mais amplo, e isso vai aumentar em muito as suas oportunidades no mercado de trabalho”, conclui.
Texto: Gabriel Spenassatto | Fotos: Luiz Miranda (arquivo pessoal) e Bloomberg | Edição de vídeo: Erica Fernanda
