Em um movimento histórico para reforçar ações afirmativas e o combate à violência de gênero, a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) promove em março uma programação inédita para o mês da mulher. Palestras, oficinas, ações culturais e o lançamento de um novo espaço de acolhimento para reforçar a proteção e a fiscalização de situações de violência estão entre as atividades organizadas.
O primeiro passo é uma ação, organizada pela Pró-reitoria de Gestão de Pessoas (Progesp), para provocar reflexão em quem passa pelos espaços da Universidade. Cinco bancos foram pintados de vermelho, em sintonia com campanhas do Ministério das Mulheres do Governo Federal. “O Banco vermelho é um símbolo internacional de combate ao feminicídio e à violência contra a mulher, representando o sangue derramado pelas vítimas. Com esta ação, buscamos conscientizar, transformar o ‘luto em luta’ e incentivar denúncias”, defende a pró-reitora de Gestão de Pessoas, professora Eliane Rauski. Na tarde de sexta-feira (6), a inauguração simbólica de um dos bancos no pátio do Bloco B foi realizada com a presença de autoridades da Universidade e da sociedade. No mesmo ato, foi lançada a Ouvidoria de Gênero – um canal de escuta e acolhimento para vítimas de violência.
O evento contou com a presença da Secretária da Família e Desenvolvimento Social, Camila Calisto Sanches, que elogiou a iniciativa. “O município de Ponta Grossa vê com muita importância esse momento. A UEPG faz parte da Rede de Enfrentamento, com seus diversos órgãos, como o Hospital Universitário. Então, que essa intervenção nos campi traga conscientização principalmente para os homens. Quando eles sentarem nos bancos, vão entender o impacto da violência na vida das mulheres”, explica Camila.
O reitor, Miguel Sanches Neto, avalia que os bancos vermelhos são um marco físico para a filosofia institucional de respeito às mulheres. “Ao espalhar pelos campi e hospitais a mensagem de combate à violência, o nosso engajamento tem um lugar concreto de visibilidade dentro da UEPG. Demonstramos por meio dessas estruturas o que está dado nas nossas políticas, campanhas, eventos e estruturas de acolhimento”. No mesmo sentido, o vice-reitor, Ivo Mottin Demiate, explica que contribuir para a proteção das mulheres na sociedade é uma responsabilidade dos entes públicos. “Temos uma comunidade universitária majoritariamente feminina. É nossa missão contribuir para um ambiente seguro para elas, dentro e fora da UEPG. Também é nosso dever conscientizar o público que passa pelos nossos espaços em relação ao combate ao feminicídio e isso tem efetividade com esta ação concreta, que se instala como uma bandeira que defendemos”.
A iniciativa dos bancos vermelhos surgiu na Itália em 2016, quando duas mulheres, após perderem amigas vítimas de feminicídio, decidiram transformar a dor em mobilização social. A cor vermelha dos bancos representa o sangue derramado pelas vítimas e serve como alerta permanente sobre a gravidade da violência de gênero. O gesto se espalhou pelo mundo e foi trazido ao Brasil pelas brasileiras Andrea Rodrigues e Paula Limongi, que fundaram o Instituto Banco Vermelho (IBV). Desde então, a iniciativa foi implementada em diferentes cidades até ser oficializada pela Lei 14.942/2024, que incluiu o Banco Vermelho entre as ações do “Agosto Lilás” – mês nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher. Na Universidade Estadual de Ponta Grossa, o banco vermelho representa a vontade institucional de ajudar no combate ao feminicídio, apoiando mulheres da comunidade universitária.
Soma-se a isso o lançamento da Ouvidoria de Gênero. A proposta é um espaço que sirva como ferramenta de acolhimento, escuta ativa e orientações para quem sofre algum tipo de violência praticada por pessoas ligadas às atividades e prestação de serviço na UEPG. Professores, servidores, estagiários, alunos e colaboradores terceirizados podem utilizar o canal de comunicação, que é sigiloso. A sala 80 foi nomeada Corina Portugal e fica dedicada a realizar o atendimento e escuta das vítimas. O espaço, que fica no prédio da Reitoria, será utilizado pela Ouvidoria, Pró-reitoria de Gestão de Pessoas (Progesp) e Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (Prae).
“A denúncia pode envolver atos considerados agressivos ou desrespeitosos vinculados à questão de gênero”, explica a Coordenadora da Ouvidoria, professora Rosaly Machado. “A Ouvidoria de Gênero é o primeiro passo de bons serviços públicos e prática dos direitos de todas as cidadãs e todos os cidadãos, por meio de um olhar diferenciado e de ações proativas, garantindo privacidade e respeito durante o processo”, completa. O contato para atendimento pode ser feito no site, no telefone (42) 3220-3184, ou pessoalmente, no Bloco da Reitoria, sala 46, logo na entrada do Campus Uvaranas.

A Prae tem o canal de escuta de gênero e diversidade desde 2019, com foco nos alunos e alunas. Com essa novidade, os órgãos passam a trabalhar de forma integrada. “O interessante é unir forças para construir ações em comum que possam abranger alunas, professoras e servidoras. É importante ter um espaço físico adequado para acolhimento, escuta e orientação das vítimas”, explica a pró-reitora de Assuntos Estudantis, professora Ione Jovino. Os estudantes também podem procurar a Prae pelo telefone (42) 3220-3237 (WhatsApp) ou pelo e-mail praeescuta@uepg.br.
Programação
Complementarmente a essa programação, no dia 9 de março, a palestra Conscientização sobre a Violência contra a Mulher promove a sensibilização sobre o tema para comunidade interna e externa. O evento começa às 13h30 e será realizado de forma online. Em conjunto com o Núcleo Maria da Penha (Numape), a palestra promove debate sobre os tipos de violência contra a mulher e reforça os canais de apoio disponíveis na rede de proteção e na própria Universidade. Acesse o evento aqui.
No dia 10 de março, a Pró-reitoria de Extensão (Proex) realiza o evento Onde os Ventos se Encontram, com oficina de gravura performática das 13h30 às 17h, com Iriana Vezzani. Dione Navarro realiza a oficina Sopros de Lavanda de sachês aromáticos e marcadores de livros para duas turmas: das 9h às 12h e das 14h às 17h. A inscrição deve ser feita neste link e as atividades acontecem na Proex.
Durante todo o mês, as bibliotecas da UEPG realizam exposições com livros escritos por mulheres. O tema será Mulheres Brasileiras na Arte, na Literatura e nas Ciências e as bibliotecas do Campus Centro e Uvaranas participarão da atividade. Para o evento de inauguração dos bancos vermelhos, a Coordenadoria de Comunicação (CCom) preparou uma playlist no Spotify de vozes femininas e músicas que tratam da temática. Confira clicando aqui.
Igualdade de gênero na UEPG
O mês de março representa a primeira disputa à Reitoria da UEPG após a aprovação de forma pioneira e unânime pelo Conselho Universitário (COU) da obrigatoriedade da paridade de gênero nas eleições à Reitoria, Setores de Conhecimento e indicações de cargos em comissão. A medida, aprovada em dezembro de 2024, passou a integrar o Regimento da UEPG. Na composição das chapas que concorrem à Reitoria ou às diretorias dos Setores de Conhecimento, no mínimo uma pessoa deve ser do sexo feminino. Na ocupação dos cargos em comissão, de livre nomeação pela Reitoria, a normativa também estabelece um mínimo de 50% das vagas para mulheres. Além disso, foi criada uma comissão permanente de estudos e acompanhamento da política de equidade de gênero, com representação de docentes e agentes universitários.
Líderes mulheres
No final de 2025, a UEPG lançou o Programa de Desenvolvimento de Liderança Feminina, com o objetivo de capacitar mulheres para liderar com confiança, autoconhecimento e habilidades práticas, enfrentando os desafios específicos de liderança no ambiente corporativo e desenvolvendo habilidades de comunicação, resiliência, gestão de equipes e projetos. O curso é dividido em nove módulos, está disponível na plataforma Universidade Corporativa e é dedicado para as mulheres que atuam da UEPG.
Texto: André Packer | Fotos: André Packer e João Pizani








