Ciclo de Conferências Psicologia e Marxismo debate esquizofrenia a partir da psicologia histórico-cultural

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O problema da esquizofrenia na psicologia histórico-cultural foi tema de palestra realizada no Grande Auditório do Campus Centro da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no dia 21 de outubro, ministrada pelo professor Bruno Peixoto Carvalho, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A atividade integrou o Ciclo de Conferências Psicologia e Marxismo, iniciativa do Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Concreta (GEPCO), com apoio do Programa de Pós-graduação em Educação e do curso de Psicologia da UEPG.

Segundo o coordenador do GEPCO e professor do curso de Psicologia da UEPG, Marcelo Ferracioli, a proposta do ciclo é aproximar estudantes e pesquisadores de trabalhos desenvolvidos na perspectiva da psicologia histórico-cultural, em diferentes áreas de atuação. “A ideia do evento é ter a chance de trazer pesquisadores que estão produzindo ciência de ponta dentro da psicologia e em diversas áreas. Na psicologia social, na psicologia do trabalho, na psicologia da educação e hoje é o caso da psicologia da saúde”, explica.

O professor explica que o grupo busca desenvolver uma abordagem fundamentada na materialidade dos fenômenos psicológicos, com bases filosóficas no marxismo e no método materialista dialético. “A maior parte das psicologias tem fundo filosófico no idealismo. Então, a ideia é construir uma psicologia que não seja a psicologia da mente, mas sim a psicologia das pessoas”, afirma o professor. Marcelo também destaca que a iniciativa pretende ter continuidade. A previsão é realizar um ciclo a cada semestre. “A gente divulgou o evento nas universidades particulares que têm cursos de psicologia. Muita gente se inscreveu de outras instituições e também de outros cursos aqui da própria UEPG”, relata.

Segundo Marcelo, a realização do ciclo também foi marcada por manifestações contrárias ao evento, incluindo a retirada de cartazes de divulgação durante a semana que antecedeu a palestra. “Marxismo é uma concepção contra-hegemônica, extremamente opositora à ordem das coisas, e que tem incorporado também as discussões mais atuais sobre gênero, sobre raça. Então, se nós somos diametralmente opostos ao poder, eu não vejo estranheza nenhuma que as pessoas reajam. Pra quem é marxista velha guarda, esse tipo de reação não é novidade”, ressalta.

Para o coordenador do GEPCO, a realização do evento ocorre em um contexto particularmente tenso, marcado pelas eleições presidenciais no Brasil. “Nós estamos na linha de frente contra a internacional fascista capitaneada por Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos da América. Sabemos que não podemos nos manifestar eleitoralmente aqui, mas podemos ser diametralmente opostos ao avanço neofascista sobre o país, sobre a UEPG, sobre os povos e as pessoas em vulnerabilidade. E hoje não vai ser diferente. Nós não temos medo deles e se eles vierem, a gente bota eles pra correr”, declara.

O evento também mobilizou integrantes do GEPCO que participam da organização das atividades. A psicóloga Cintia Pigatto, mestranda no Programa de Pós-graduação em Educação da UEPG, foi responsável pela mediação do encontro. Sua aproximação com a psicologia histórico-cultural ocorreu a partir do interesse em aprofundar os conhecimentos relacionados à prática profissional na educação, área em que atua há 13 anos. “Foi isso que acabou me levando para o grupo”, explica. “Eventos como esse são riquíssimos e contribuem muito para a comunidade acadêmica. Eu tô muito feliz e orgulhosa de fazer parte”, afirma.

Cintia também comentou as reações contrárias ao evento. “Ao mesmo tempo eu fico chateada, mas também muito mais impulsionada a lutar. Então, é algo que entristece, mas não me desanima. Vamos para cima, vamos lutar porque é o que eu acredito”, declara. A mestranda ressalta, ainda, que sua aproximação com a teoria não significa que se considere marxista. “A minha dissertação se fundamenta no materialismo histórico dialético. Mas eu acho que ainda sei muito pouco para me dizer marxista”, conclui.

Durante a palestra, o professor Bruno Peixoto Carvalho propôs uma discussão sobre as diferentes formas de compreender a esquizofrenia e apresentou contribuições da psicologia histórico-cultural para o estudo do fenômeno. O pesquisador explicou que sua exposição reúne formulações de Lev Vygotsky, psicólogo soviético que também é uma das principais referências teóricas do GEPCO, e de outros autores dessa tradição.

Antes de entrar nas contribuições teóricas, o professor apresentou definições contemporâneas da esquizofrenia, tomando como referência manuais de psicopatologia e critérios utilizados na psiquiatria. Entre as características associadas ao quadro, mencionou alucinações, delírios, alterações no comportamento, pensamento e discurso desorganizados. Também explicou a diferença entre os sintomas como alucinações e delírios, e os chamados sintomas negativos, relacionados, por exemplo, a dificuldades de sociabilidade e a diminuição da afetividade pelas coisas.

Ao questionar as definições baseadas principalmente na descrição dos sintomas, Bruno destacou que elas não contemplam aspectos importantes para a compreensão do fenômeno. “O que caracteriza essas definições é que elas são centradas nos aspectos fenomenológicos do quadro, naquilo que ele tem de mais aparente, na mera descrição de sintomas”, afirmou. Para o pesquisador, é necessário investigar também as causas e a dinâmica do quadro, identificando quais manifestações são centrais e como se relacionam com a experiência de cada sujeito.

Texto e fotos: João Pizani


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