Fórum das Licenciaturas debate inteligência artificial e os desafios da educação contemporânea

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Pensar a formação de professores em um momento de profundas transformações tecnológicas. Foi com esse propósito que a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) realizou, nos dias 1º e 2 de junho, a 18ª edição do Fórum das Licenciaturas, com o tema “FormAção docente em movimento”. Promovido pela Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), pela Comissão Permanente das Licenciaturas (Copelic) e pelos cursos de licenciatura da UEPG, o evento reuniu acadêmicos, docentes e profissionais da educação em uma programação voltada ao diálogo, à reflexão e à troca de experiências sobre questões que atravessam a educação contemporânea. Neste ano, a inteligência artificial ocupou o centro das discussões. A abertura do evento ocorreu no Grande Auditório do Campus Centro e teve como destaque a palestra “Ensinar em tempos de Inteligência Artificial: crise ou reinvenção da docência?”, ministrada pelo professor Fernando Silvio Cavalcante Pimentel, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Responsável pela coordenação do evento, a diretora de Ensino da Prograd e presidente da Copelic, professora Cristiane Aparecida Woytichoski, destacou a relevância alcançada ao longo de quase duas décadas de existência. “Ao celebrar a nossa 18ª edição, podemos afirmar que estefórum atingiu sua maioridade. Um marco que traz consigo a marca da responsabilidade, da tradição, do impacto social e da transformação pedagógica. Alcançamos esse momento histórico com um convite para que toda a comunidade reflita sobre a educação do presente e as perspectivas para o futuro”, ressaltou. Ao explicar a escolha da temática deste ano, a professora apontou o impacto da inteligência artificial na formação docente. “Se analisarmos o nosso modelo de aula, muito pouco mudou ao longo dos últimos séculos, estruturamos a nossa prática pedagógica sob a premissa de que o docente detém o conteúdo e o estudante frequenta a universidade para acessar esse saber. No entanto, a IA rompeu esse contrato tradicional de uma forma abrupta. Hoje, o plano de aula que demandava horas e horas de planejamento, ou o resumo do artigo científico mais denso, estão acessíveis aos acadêmicos em questão de segundos”, observou.

Ao observar o auditório lotado na cerimônia de abertura, o pró-reitor de Graduação, professor Miguel Archanjo de Freitas Júnior, fez uma reflexão sobre os limites da IA. “Talvez aí nós tenhamos uma das primeiras diferenças que a inteligência artificial ainda tem em relação ao professor: o sentimento, a emoção. Sempre que vemos essa temática, uma das primeiras coisas que nos vem à cabeça é: será que a inteligência artificial vai substituir o professor? E a resposta não é tão simples, porque vai depender da concepção de professor que nós estamos falando“, comentou. Em sua fala, ele destacou o apoio da atual gestão universitária, o compromisso de manter todos os cursos de licenciatura e mencionou iniciativas voltadas ao preenchimento das vagas ofertadas pela instituição, como a gratuidade da inscrição no Vestibular e o projeto Vaga Ociosa Zero (Voz). Na avaliação do pró-reitor, os resultados obtidos demonstram a efetividade das medidas adotadas. “Hoje nós podemos dizer que as evidências e os resultados vieram. Nós somos uma das poucas universidades do Brasil que preenche 100% das suas vagas ofertadas”, celebrou.

Após agradecer as inúmeras pessoas que contribuíram para a realização do Fórum das Licenciaturas ao longo dos anos, o professor defendeu que valores humanos permanecem centrais na atividade docente. “Nós precisamos ser gratos e precisamos ser gratos sempre. Nós precisamos ser críticos e precisamos ser críticos sempre. Nós precisamos ser humanos e precisamos ser humanos sempre. Porque se nós formos gratos, humanos e críticos, nós não seremos substituídos pela inteligência artificial. Nós teremos uma grande companheira e seremos cada vez melhores professores”, afirmou.

Ao abordar a temática do Fórum, o reitor da UEPG, professor Miguel Sanches Neto, aproveitou para compartilhar sua própria trajetória de adaptação às mudanças tecnológicas. “Eu sou um imigrante nesse mundo. A maioria das pessoas da minha geração, nós começamos no mundo analógico, toda nossa formação foi no mundo analógico e o centro de toda a formação era a universidade e a escola. Nós tínhamos que nos formar dentro das universidades apenas, porque é onde estava concentrado o conhecimento”, comenta. Segundo ele, esse cenário foi profundamente alterado ao longo das últimas décadas. “O conhecimento está em todos os lugares e a universidade passa, entre aspas, por uma crise, principalmente na sua forma de lecionar, porque houve essa explosão do conhecimento”, destacou.

O reitor recordou quatro grandes transformações tecnológicas que acompanhou desde os anos 1980: a popularização dos computadores, a expansão da internet, a chegada dos smartphones e, mais recentemente, a inteligência artificial. Na avaliação dele, a IA representa o ápice desse processo de transformação. “Se um professor ou uma professora de 1980 voltasse no tempo para 1920, ele se reconheceria mais ou menos naquele mundo lá de 1920. Hoje, se a gente voltar 30 anos atrás, 20 anos atrás, teríamos dificuldade de nos reconhecermos. Porque está tão naturalizada a tecnologia, a forma de acessarmos o conhecimento que qualquer coisa diferente disso nos parece antinatural”, afirmou. Diante desse cenário, defendeu que as instituições de ensino não podem ignorar a presença crescente dessas ferramentas. “Não podemos varrer a inteligência artificial para baixo do tapete, não dá para fazer de conta que ela não existe. Nós precisamos pensar metodologicamente sobre o uso da IA dentro dos nossos cursos”, ressaltou. Para o reitor, o desafio não está em combater a tecnologia, mas em compreender como utilizá-la em favor de uma educação pública mais inclusiva, humana e de qualidade.

A palestra de abertura do Fórum das Licenciaturas teve um significado especial para além da temática debatida. Convidado para discutir os impactos da inteligência artificial na educação, o professor Fernando Silvio Cavalcante Pimentel retornou ao local onde iniciou sua própria trajetória acadêmica, antes de se tornar referência nacional nos estudos sobre tecnologias educacionais. “Em 1998 eu estava prestando o Vestibular para ser aluno do curso de Pedagogia aqui na UEPG. E comecei em 99 aqui nas salas desse prédio e num belo dia também estava aqui como vocês. Mas quis a vida que eu voltasse para minha terra natal, que eu voltasse para Maceió, depois de ter passado um tempo em Brasília, um tempo em Ponta Grossa”, recordou. Hoje professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Fernando fez um “mega culpa” ao assumir que muitas licenciaturas ainda preparam os alunos para uma realidade que já não corresponde ao contexto atual. “Nossos currículos estão formando professores para uma realidade que já não existe. Não é apenas uma realidade de mercado, mas é a realidade da sociedade em que nós estamos. Então, quando nós estamos aqui pensando em inteligência artificial, estamos pensando também no currículo da formação dos professores. Que professores nós queremos para os nossos filhos, para os nossos sobrinhos, para os nossos netos? Que professores somos e que professores queremos ser?”, questionou.

Ao longo da palestra, Fernando procurou desconstruir a ideia de que a inteligência artificial seria uma novidade recente. Ele lembrou os estudos de Alan Turing sobre computação durante a Segunda Guerra Mundial e destacou que os princípios da inteligência artificial vêm sendo desenvolvidos há décadas. O que mudou recentemente foi a popularização dessas ferramentas e sua incorporação ao cotidiano das pessoas. “Às vezes algumas pessoas têm receio de falar de IA ou de pensar na IA na formação de professores por pensar que é mais uma moda. Não é uma moda. mas é algo que vem se construindo ao longo dos tempos. Em 2022,a IA já estava entre nós e a gente nem percebia que era IA”, ressaltou. O professor utilizou exemplos simples para aproximar o tema da experiência do público, comparando os atuais sistemas de recomendação ao trabalho realizado antigamente por funcionários de locadoras de vídeo ou por garçons que conhecem os hábitos dos clientes mais frequentes. “Eles faziam o papel do que hoje faz a inteligência artificial: a curadoria. Quando a gente gosta muito de uma pizzaria, vai muito lá e já conhece até o garçom, o garçom diz assim: o de sempre? A IA faz a mesma coisa. Ela nos apresenta o mesmo, o de sempre”, explicou. “E aqui está um dos primeiros cuidados que nós precisamos entender. A IA não é algo de 2025, 2026. Antes ela já estava presente e ela já estava mudando a forma de ensinar.”

FormAção docente em movimento

Além da palestra de abertura, a 18ª edição do Fórum das Licenciaturas contou com uma extensa programação formativa ao longo do segundo dia de atividades. Foram ofertadas 59 oficinas distribuídas nos períodos da manhã, tarde e noite, organizadas por programas e projetos vinculados às licenciaturas da UEPG, entre eles o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) e o Programa de Educação Tutorial (PET). As atividades abordaram múltiplas temáticas com o objetivo de integrar diferentes áreas do conhecimento e estreitar os laços entre a teoria construída no ambiente universitário e as reais demandas do cotidiano escolar.

Texto: João Pizani | Fotos: Larissa Godoy


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