Diabético Espiritual
O Ponteiro enfrentou fila e sagrou-se o último dos fãs a entrar no camarote, mas certamente foi o que mais fez perguntas. Confira entrevista com Belchior

 

 

 

O Ponteiro – Como era fazer música numa época em que não havia essa forte influência de gravadoras?

Belchior – Olha, eu podia até dizer que era muito complicado e difícil, mas eu quero dizer que foi bom. Da forma que aconteceu, foi até um pouco heróico conseguir o sonho de fazer música. Tive todas as dificuldades que todos os meus companheiros tiveram e as dificuldades (felizmente, até) fizeram atrasar a consecução do projeto, mas deu também uma corda, deu quase uma qualidade específica para esse sonho. Fazer música dessa forma sempre foi muito bom. Foi sempre um ato de poesia. Principalmente o tipo de música que eu faço e que minha geração sempre fez, que usa um tipo de palavra poética e que a gente sempre quer fazer, usando um tipo de objeto artístico relativo à cultura do Brasil. Então isso é sempre muito estimulante

O Ponteiro – Como era compor na época da ditadura militar? Quais foram as maiores dificuldades?

Belchior – A comunicação nesse tempo era muito mais fechada que a de hoje. E não posso dizer que isso tenha ajudado a música. Pelo contrário, atrasou. Embora fosse tema de muitas canções, esse fato de viver numa sociedade fechada, era também o tema de que todos nós queríamos escapar. É muito melhor cantar a liberdade do que a ausência dela.

O Ponteiro – Quantas músicas suas foram censuradas?

Belchior – Praticamente todas. Até a chegada da Anistia, praticamente todas as músicas passaram por um processo de censura. E isso não é uma particularidade da minha música. Todos os músicos da minha geração foram submetidos à censura.

'(...) só gosto na verdade do rock ligado à rebeldia. Eu não gosto de rock meloso, só de barra pesada, que é aquele rock que não perdeu um grito, uma espécie de revolta e que inicia de alguma forma uma nova linguagem. Quando isso aí se torna um fenômeno puramente comercial e já perde o sentido de invenção e descoberta, não me interessa mais'

O Ponteiro – Depois do show, estávamos comentando que tuas músicas lembram sempre questões de juventude...

Belchior – É... Eu sempre dediquei meu trabalho a essa questão da juventude. Naturalmente, não são só questões biográficas. Eu não preciso exatamente que o eu-lírico esteja jovem, ou mesmo eu próprio, para que essa canção levante a questão da juventude. Minhas músicas falam da aventura de viver, da
descoberta do mundo, o desconcerto da vida e o fato de que o jovem, para encontrar seu caminho, deve matar o pai (como dizia Freud). Ele tem que assassinar os membros da família. Então esse conflito, que é o conflito básico, primitivo, é o encontro da própria identidade de que eu trato na minha música. Não do ponto de vista somente da faixa etária, mas também no sentido cultural, mais amplo e universal, que é essa questão do conflito entre a tradição e a renovação (ou aquelas pessoas que acham que o passado é
tão bom que se deve repetir e aquelas outras que se dedicam mais à aventura de descobrir o futuro).

O Ponteiro – Como você avalia o atual cenário musical brasileiro? O que te chama atenção?

Belchior – Eu sou péssimo para fazer uma análise sobre a MPB porque eu só gosto da música da minha geração e das gerações anteriores. Eu acho que isso que chamam MPB hoje eu... não sei o que é. Só me interessa como observador da cena. Eu também só gosto daqueles que dão continuidade àquele tipo de música mais sofisticada, mais culta, que não precisam de muita explicação sociológica para a exigência do público. Os Los Hermanos gravaram minha música e eu acho que eles são um grupo muito culto e
  muito fino, que faz a melhor fusão entre a Música Popular Brasileira e as correntes mais contemporâneas de influência musical (do Rock, Pop, Reggae, Ska...).