CONCEPÇÃO DE REDE INTERSETORIAL
JUSSARA AYRES BOURGUIGNON
* Prof. do Departamento de
Serviço Social da
Universidade Estadual de Ponta Grossa
Mestre em Serviço Social - PUC/SP
setembro-2001
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Refletir e propor trabalho social em rede constitui-se,
hoje, um grande desafio para os profissionais vinculados às políticas
públicas, gestores municipais, conselheiros pertencentes aos diferentes
Conselhos de Direitos que respondem pela garantia dos direitos fundamentais
do cidadão, principalmente num contexto em que a exclusão social
é marcante.
PEREIRA(1998) alerta que a exclusão social é fenômeno multidimensional,
portanto complexo, que afeta as condições objetivas de vida e
de sobrevivência dos cidadãos e de suas famílias. Vulneráveis
em função do processo sócio - econômico e político
de globalização da economia, sofrem discriminação,
humilhação, segregação, não encontram oportunidades
de trabalho, de se prepararem para o mercado de trabalho ou de se manterem nele,
dependendo cada vez mais de ações eventuais e compensatórias.
Agrava este quadro a fragilização das políticas públicas,
o que impede a estes cidadãos encontrarem meios, recursos e possibilidades
de garantir seus direitos.
Diante deste quadro, reafirmando a garantia dos direitos, é oportuno
refletir sobre como a moderna gestão social pode definir estratégias
que viabilizem, na realidade local, um processo de inclusão social. Dentre
estas estratégias as redes sociais surgem como alternativa necessária
de enfrentamento das manifestações da exclusão social
Enfrentar este desafio exige, num primeiro momento,
definir o que se entende por rede na área social, especialmente no contexto
da gestão municipal dos serviços de atenção às
necessidades da família, criança e adolescente, que deve atender
ao princípio de proteção integral previsto pelo ECA.
GUARÁ et al (1998, p. 7), alerta que a gestão municipal busca
responder a dois grandes desafios: "O primeiro desafio diz respeito a como
implementar um projeto articulado e integrado (...) que resulte em ações
efetivas voltadas para o desenvolvimento e a proteção de crianças
e adolescentes. O segundo desafio está intimamente ligado ao primeiro:
como fazer uma gestão ousada e competente destas ações
que devem ser efetivadas no âmbito municipal."
Tradicionalmente as políticas públicas básicas (educação,
assistência social, saúde, habitação, cultura, lazer,
trabalho, etc.) são setoriais e desarticuladas, respondendo a uma gestão
com características centralizadoras, hierárquicas, deixando prevalecer
práticas na área social que não geram a promoção
humana. Além disto percebe-se que cada área da política
pública tem uma rede própria de instituições e/ou
serviços sociais. Exemplo disto é a Assistência Social que
possui um conjunto de entidades estatais e filantrópicas que prestam
serviços na área de forma paralela as demais políticas
e muitas vezes atendendo aos mesmos usuários.
Esta forma de gestão da política pública gera fragmentação
da atenção às necessidades sociais; paralelismo de ações;
centralização das decisões, informações e
recursos; rigidez quanto as normas, regras, critérios e desenvolvimento
dos programas sociais; divergências quanto aos objetivos e papel de cada
área, unidade, instituição ou serviço participante
da rede; fortalecimento de hierarquias e poderes políticos/decisórios
e fragilização do usuário - sujeito do conjunto das atenções
na área social.
A gestão social orientada pela Constituição Federal de
1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei Orgânica de
Assistência Social propugna que "a administração do
conjunto das políticas públicas e as instituições
que as põem em prática passem por um profundo processo de renovação."
(GUARÁ et al, 1998, p. 11)
Conforme esta mesma autora uma gestão social moderna exige modelos flexíveis
em que o processo de descentralização e participação
social sejam efetivados de forma a favorecer parcerias com a sociedade civil
organizada nas ações e decisões que dizem respeito ao encaminhamento
das políticas públicas.
Importante, então, esclarecer o que é gestão social. "Gestão
do social é, em realidade, a gestão das demandas e necessidades
dos cidadãos. A política social, os programas sociais, os projetos
são canais e respostas a estas necessidades e demandas." (Carvalho,
1999, p. 19)
Assim, pode-se colocar que a gestão social preocupa-se com ações
de caráter público e que as redes sociais nada mais são
do que um destes canais ou estratégias de enfrentamento das expressões
da questão social numa dada realidade municipal.
É bom lembrar que o maior propósito de uma gestão municipal
comprometida com a cidadania é desencadear um processo de desenvolvimento
social, ou seja ampliar as "condições de qualidade de vida
e do exercício dos direitos de uma dada população, com
o objetivo de promover o compartilhamento da riqueza material e imaterial disponível
em um grupo social, em determinado momento histórico." (INOJOSA,
1998, p. 41).
A moderna gestão social pauta-se, portanto, em princípios como
a descentralização, participação social e intersetorialidade.
Este último termo - intersetorialidade - merece destaque especial neste
texto. Trata-se da articulação entre as políticas públicas
através do desenvolvimento de ações conjuntas destinadas
a proteção, inclusão e promoção da família
vítima do processo de exclusão social. Considera-se a intersetorialidade
um princípio que orienta as práticas de construção
de redes municipais.
O que seria rede? Segundo GUARÁ et al (1998, p. 12) "até
algumas décadas atrás, usávamos o termo rede na administração
pública ou privada para designar uma cadeia de serviços similares,
subordinados em geral a uma organização-mãe que exercia
a gestão de forma centralizada e hierárquica." Hoje, "uma
rede pode ser o resultado do processo de agregação de várias
organizações afins em torno de um interesse comum, seja na prestação
de serviços, seja na produção de bens. Neste caso, dizemos
que as unidades operacionais independentes são 'credenciadas' e interdependentes
com relação aos processos operacionais que compartilham."
(GONÇALVES apud GUARÁ et al, 1998, p. 13)
Pensar rede nesta perspectiva exige sintonia com a realidade local, com sua
cultura de organização social, bem como uma sociedade civil forte
e organizada, capaz de se fazer ativa e participativa diante da administração
pública.
O termo rede sugere a idéia de articulação, conexão,
vínculos, ações complementares, relações
horizontais entre parceiros, interdependência de serviços para
garantir a integralidade da atenção aos segmentos sociais vulnerabilizados
ou em situação de risco social e pessoal.
Assim na área da criança e do adolescente entende-se rede como
"conjunto integrado de instituições governamentais, não
governamentais e informais, ações, informações,
profissionais, serviços e programas que priorizem o atendimento integral
à criança e adolescente na realidade local de forma descentralizada
e participativa."(HOFFMANN et al, 2000, p. 6)
GUARÁ et al (1998, p. 18 - 32) classifica os tipos de redes que podem
ser observadas no espaço local, como: a rede social espontânea;
redes sócio - comunitárias; rede social movimentalista; redes
setoriais públicas; e redes de serviços privados. Porém
a esta classificação acrescenta-se duas outras que retratam com
maior dinamicidade as possibilidades de articulação às
já existentes, como as redes regionais e as redes intersetoriais. Pode-se
observar esta classificação no quadro abaixo:
QUADRO I - CLASSIFICAÇÃO DE REDES SOCIAIS
TIPOS DE REDE
REDE SOCIAL ESPONTÂNEA: constituída
pelo núcleo familiar, pela vizinhança, pela comunidade e pela
Igreja. São consideradas as redes primárias, sustentadas em princípios
como cooperação, afetividade e solidariedade.
REDES SÓCIO - COMUNITÁRIAS: constituída por agentes
filantrópicos, organizações comunitárias, associações
de bairros, entre outros que objetivam oferecer serviços assistenciais,
organizar comunidades e grupos sociais.
REDE SOCIAL MOVIMENTALISTA: constituída por movimentos sociais
de luta pela garantia dos direitos sociais (creche, saúde, educação,
habitação, terra...). Caracteriza-se por defender a democracia
e a participação popular.
REDES SETORIAIS PÚBLICAS: são aquelas que prestam serviços
e programas sociais consagrados pelas políticas públicas como
educação, saúde, assistência social, previdência
social, habitação, cultura, lazer, etc.
REDES DE SERVIÇOS PRIVADOS: constituída por serviços
especializados na área de educação, saúde, habitação,
previdência, e outros que se destinam a atender aos que podem pagar por
eles.
REDES REGIONAIS: constituídas pela articulação entre
serviços em diversas áreas da política pública e
entre municípios de uma mesma região.
REDES INTERSETORIAIS*: são aquelas que articulam o conjunto das
organizações governamentais, não governamentais e informais,
comunidades, profissionais, serviços, programas sociais, setor privado,
bem como as redes setoriais, priorizando o atendimento integral às necessidades
dos segmentos vulnerabilizados socialmente.
Fonte: GUARÁ, et al Gestão Municipal dos serviços
de atenção à criança e ao adolescente. São
Paulo: IEE/PUC - SP; Brasília: SAS/MPAS,1998.
*Núcleo de Estudos da Família Criança e Adolescente da
UEPG - Ponta Grossa/Pr
Org: a autora
Ano: 2001
Observa-se que, num município, são
possíveis diferentes formas de manifestação das redes e
que uma não exclui a existência de outra, porém preconiza-se
que haja um avanço no sentido de se organizar redes intersetoriais, se
o objetivo for otimizar as ações públicas para o enfrentamento
da pobreza.
Por fim, baseado nos autores GUARÁ et al, (1998) e INOJOSA (1999), destaca-se,
a partir de agora, os requisitos fundamentais para o trabalho em rede, bem como
sua base de sustentação. Estes supõem :
- O Município como espaço territorial onde as ações
e serviços de atenção à família, criança
e adolescente se desenvolvem.
- O Governo Municipal enquanto gestor e os Conselhos como órgãos
que garantem o direcionamento das ações, a prestação
de serviços de qualidade e a defesa dos direitos fundamentais do cidadão.
- Desencadeamento de um processo de mobilização para participação
dos agentes a serem envolvidos.
- Diagnóstico das necessidades dos grupos sociais vulnerabilizados e
em situação de risco, para se definir prioridades.
- Definição de projetos específicos e intersetoriais com
identificação de objetivos, metodologia de trabalho e previsão
dos resultados a serem alcançados.
- Sinergia e articulação entre todas as instituições
e agentes que prestam serviços no município através do
compartilhamento de objetivos e ações.
- Suporte qualificado e gerencial às organizações envolvidas,
ou seja, apoio técnico, administrativo, financeiro e político
para desenvolvimento de seus propósitos.
- Parcerias sustentadas no respeito ao potencial de cada ator social.
- Processo contínuo de circulação de informações.
- Conquista de legitimidade junto ao município.
- Definição de um embrião capaz de manter vivo o processo
de trabalho conjunto : o Reeditor.
- Capacitação dos agentes envolvidos.
- Avaliação e redefinição de estratégias
operacionais, como atividade permanente.
Para concluir este texto deve-se enfatizar que repensar o direcionamento das
ações das políticas públicas destinadas à
família, criança e adolescente exige enfrentar o desafio de, a
partir do princípio da intersetorialidade, construir redes intersetoriais
capazes de responder as demandas sociais numa perspectiva de garantia dos direitos
fundamentais destes segmentos cada vez mais empobrecidos material e culturalmente
pelo processo sócio - histórico de exclusão social.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
CARVALHO, Maria do Carmo Brant de. Gestão Social: alguns apontamentos para o debate. In: RICO, Elizabeth de M. e RAICHELIS, Raquel (orgs.) Gestão Social: uma questão em Debate. São Paulo: EDUC; IEE, 1999. p. 19 - 29.
GUARÁ, Isa M. Ferreira da Rosa et. al. Gestão Municipal dos serviços de atenção à criança e ao adolescente. São Paulo: IEE/PUC - SP; Brasília: SAS/MPAS, 1998.
HOFFMANN, C. de F. M.; BOURGUIGNON, J.; TOLEDO, S. e HOFFMANN, T. Reflexões sobre rede de atendimento à criança e ao adolescente. Núcleo de Estudos sobre a questão da criança e do adolescente. Ponta Grossa/ Pr: UEPG, 2000.
INOJOSA, Rose Marie. Redes de Compromisso Social. São Paulo: FUNDAP, 2000, mimeo.
INOJOSA, Rose Marie. Intersetorialidade e a configuração de um novo paradigma organizacional. Revista de Administração Pública. vol. 32, março/abril, Rio de Janeiro,1998.
PEREIRA, Potyara Amazoneide. Centralização e exclusão social: duplo entrave à política de assistência social. In Revista Ser Social. n. 3, julho a dezembro, UNB, 1998.