Analfabetismo : causas e conseqüências.

Paper Analfabetismo : causas e conseqüências.

Linite Adma de Oliveira. (Acadêmica da 2ª série do Curso de Letras- UEPG)

Este texto originou-se das leituras e discussões dos artigos: "Excluídos, porque somos culpados", de autoria de Orlinda Melo (1997); " Adeus à escola pública: a desordem neoliberal, a violência do mercado e o destino das maiorias", do autor Pablo Gentili (1995), do livro "As Metamorfoses da Questão Social: uma crônica do salário", de Robert Castel (1998) e da reportagem "Aos que não vão ler esta reportagem" publicado na Revista Educação no ano de 1998.

A partir da reflexão sobre os textos acima citados, questionou-se a situação do analfabetismo no Brasil, a importância da escola pública, gratuita e de qualidade e a relação da escola com o trabalho.

Utilizando diferentes metodologias, cada um deles apresenta o analfabetismo como um dos fatores da desigualdade e exclusão, temas de estudo do Núcleo Projeto de Pesquisa: "Desigualdade e Exclusão no Espaço Local."

No artigo escrito por Dias (1998) há uma reflexão sobre o conceito de alfabetização, sobre o sentimento de culpa e vergonha dos analfabetos diante dos indivíduos alfabetizados e a exclusão desses no mundo de informações.

Os analfabetos consideram-se "cegos sociais" porque não conseguem decodificar o código escrito ao seu redor.

Através dos depoimentos dos analfabetos, Dias (1998) afirma que no processo de alfabetização ocorre muitos empecilhos tais como: cansaço decorrente de longa jornada de trabalho, o desemprego (pois o material exigido pela escola é pago pelo aluno, embora o governo coloque à disposição quantidade de material limitado para cada escola; a falta de auto-estima dos alunos que diante das dificuldades financeiras deixam a escola (segundo Gadotti a escola pública atende somente a classe média); pais analfabetos e desestimulados não encontram perspectivas em mandar seus filhos à escola, devido a ausência de escolas próximas à moradia, distância perceptível em grandes cidades e zona rural. Todos esses fatores fazem, muitas vezes com que os próprios alunos resignem-se diante de tantas dificuldades, acomodando-se no trabalho braçal e deduzindo que para tais atividades não é necessário o domínio da leitura, escrita e interpretação.

Em visitas realizadas em escolas públicas urbanas e rurais nota-se uma grande diferença entre elas no que diz respeito às atividades desempenhadas pelo professor. Na primeira, o professor pode exercer sua alfabetização de maneira "plena", embora disponha de poucos recursos materiais. Já na segunda, às tarefas didáticas somam-se outras como: limpeza da escola e preparação da merenda, gerando assim acúmulo de tarefas ao professor e conseqüente prejuízo as suas atividades pedagógicas.

O descaso do governo para com a educação, fica transparente nos programas de alfabetização de adultos que oferecem um diploma pelo mínimo de conhecimento por eles obtidos e também pela despreocupação com aqueles indivíduos que nunca registraram seu nome na escola.Dá-se importância a quantidade de pessoas que passam pela e não a qualidade do ensino.

A professora da USP, Stela Piconez, na reportagem de Dias, critica os dados apresentados sobre o analfabetismo, pois estes consideram em seus levantamentos, apenas aqueles que não sabem ler e nem escrever um bilhete, desconsiderando aqueles que não sabem interpretar uma informação qualquer, embora saibam ler e escrever, totalizando o número de analfabetos em 60 milhões e não 16 milhões de pessoas no Brasil.

Em sua obra, Dias comenta que o Brasil deve preocupar-se com mais intensidade em relação à na educação; cita a Bolívia como parâmetro, um pais social e culturalmente mais pobre que o nosso e no entanto, com uma porcentagem menor de analfabetos.

O analfabetismo não pode ser considerado como uma doença a ser erradicada, mas um problema social a ser resolvido pelos dirigentes de nosso pais, para que o cidadão possa viver com dignidade humana e exercer a sua cidadania.

Melo(1997) apresenta depoimentos de um grupo de analfabetos que se sentem culpados por não dominar o discurso dos detentores do poder. E esses depoimentos são apropriados pela minoria como forma de estabelecer a diferença entre o discurso oficial baseado na língua escrita e a fala natural dos trabalhadores.

Submisso,o analfabeto tenta justificar-se, buscando a alfabetização para ler instruções, avisos, assinar seu nome, contratos, para qualificar-se no trabalho, como forma de apresentar-se como pessoa honesta (porque sabe escrever), como garantia de obter um lugar na sociedade, para poder conversar com as outras pessoas utilizando palavras mais condizentes com a norma padrão.

Uma alfabetização que atende interesse da minoria provoca a divisão entre proprietários e trabalhadores, cristalizando assim o distanciamento entre as classes sociais e a consciência da não mobilidade social.

Qual tem sido então a função da alfabetização na escola pública?

Castel (1998) reflete acerca do desemprego que assola a população francesa pela falta de perspectivas na conquista de um outro emprego. O indivíduo desempregado fica sem emprego, sem saúde , sem educação... fica desfiliado. Castel lembra também daqueles que nem sequer conseguiram inserir-se no mercado de trabalho, restando-lhes então trabalhos informais sem garantia alguma.

O texto de Gentili (1995) vem ao encontro de Castel e aos demais citados, que evidenciam o discurso neoliberal atuante no quotidiano dos dias atuais.

Gentili critica a ideologia neoliberal que valoriza a livre concorrência, a mercantilização de todas as coisas, onde uns terão mais poder de compra que os outros. Neste contexto se insere também a educação pública , aos poucos traduzida em mercadoria acessível a um pequeno número de privilegiados, com poder de adquirí-la como um bem material.

E através de estratégias privatizantes que se nega o direito a escola pública financiada pelo Estado, preocupado atualmente em controlar a escola pública através de seus planos de educação e direcionando as demais responsabilidades aos municípios e estados tornando, assim ,a divisão de classes cada vez mais solidificada.

A desigualdade, segundo os neoliberais é necessária para que o indivíduo lute em obter qualidade de vida e ascensão social, através de seu esforço e dedicação. A educação vista como uma mercadoria não foge desses parâmetros de competição.

Diante dos apontamentos de Gentili, dizer "adeus à escola pública", gratuita e de qualidade não seria a solução para melhorar a qualidade de vida, concordando com programas de privatizações de empresas estatais do governo, programas de alfabetização realizados por órgãos não lucrativos ou outros programas sociais como "Amigos da Escola", ou aceitar a autonomia universitária ou dispor de recursos financeiros para reformas de escolas. Se faz necessário lutar pela escola pública e defendê-la de princípios neoliberais. Porque senão, aqueles que não possuem bens finaceiros não estudam e se não estudam não têm emprego e se não têm emprego não podem comprar o conhecimento e se não têm estudo ficam desempregados.

A escola pública deve realizar-se dentro de princípios democráticos que promovam a igualdade e a justiça e não a divisão da sociedade entre proprietários e trabalhadores.

Análises estatísticas, conforme Dias comentara em seu artigo citado acima, demonstram o abandono à escola pública, pois demonstram a diminuição do analfabetismo no Brasil, ao considerar os analfabetos absolutos e desconsideram àqueles que tiveram experiência escolar, mas não conseguem interpretar nem mesmo um manual de uso de eletro- doméstico ou entender as previsões de tempo.

Segundo o IBGE - novembro/1999, no Brasil, conforme descrito no site www.fates.tche.br/BDR/Todos/Des Social/alfabetização a taxa de analfabetismo entre a população que possui 15 anos ou mais teve decadência de 33,0 % (1970) para 19,4% (1991) e o número médio de anos de estudos da população de 25 anos e mais, varia de 2,4% (1970) para 4,9% (1991).

Segundo a Unesco o Brasil é a 9ª economia do mundo, no entanto apresenta 18% de sua população analfabeta.

A taxa de analfabetismo no Brasil é 17,8% da população, enquanto que na Venezuela é de 4,7% e no Chile é de 3,0% da população, embora esses paíse tenham renda per capita equivalente (conforme UNESCO: Statistical Yearbook,1994 - Banco Mundial).

A taxa de Escolarização Líquida no Brasil, nos anos de 1994 a 1999 é 6,4% no Ensino Fundamental - 7 a 14 anos; 9,9% no Ensino Médio e 1,2% no Ensino Superior - 20 a 24 anos (Fonte: INEP/MEC).

Ao analisar os dados acima apresentados podemos fazer as seguintes interrogações: Como considerar a diminuição do analfabetismo sem conhecer o número real da população de cada faixa etária? Por que somente poucas pessoas entre 20 a 25 cursam em idade ideal sua primeira faculdade? Porque só aqueles que recebem mais de dois salários mínimos mensais ingressam no Ensino Médio?

Há outras questões que podem ser pensadas tomando como referência a má distribuição de renda no Brasil: diferenças regionais marcantes, intensa polarização capital/trabalho, sistema tributário injusto, ampla sonegação fiscal e de contribuições trabalhistas, sistema informal de trabalho, trabalhadores desempregados, inexistência de instrumentos de justiça econômica, salário mínimo muito abaixo da suas possibilidades econômicas, forte polarização urbano/rural, diferenças de renda segundo o sexo e a etnia, alto nível de corrupção no sistema público e sistema privado, um sistema de previdência insuficiente que provocam a escolarização irregular da população.

Diante de tudo isso faz-se necessário promover a educação do povo brasileiro para a valorização das escolas públicas, exercendo seus direitos e deveres num contexto da cidadania democrática. Caso contrário , a desigualdade e a exclusão social irá permanecendo através dos tempos.

Ponta Grossa, que é uma cidade brasileira, entre outros fatores de exclusão social, apresenta também índices de analfabetismo, porém não serão apresentados neste texto dados numéricos, porque o material obtido na Prefeitura Municipal de Ponta Grossa no mês de setembro de 2000, refere-se a contagem da população feita pelo IBGE em 1996.

Dados obtidos informalmente na Seção de Estatística da Prefeitura Municipal de Ponta Grossa em 19 de setembro de 2000 segundo levantamento realizado em julho do ano de 2000 são os seguintes:

Há em Ponta Grossa 72 escolas públicas Municipais sendo 5 rurais e 67 urbanas. As escolas rurais possuiam 1352 alunos matriculados e as urbanas 22318 alunos, sendo que 458 alunos eram do Programa de Educação de Jovens e Adultos ( a partir de 14 anos). No ano de 1999 o índice de evasão de 1ª a 4ª séries foi de 3,14% enquanto que o índice de reprovação foi de 35,14% e nas séries de 5ª a 8ª , a evasão foi de 6,19% enquanto que de reprovação foi de 40,12% de reprovação.

Esses dados apresentados acima advém somente dos alunos cujas matriculas foram realizadas. A causa da evasão e da repetência e o não retorno dos alunos às escolas não foram considerados.

Diante desse pequeno registro da pesquisa em realização acerca do Analfabetismo em Ponta Grossa, que compõe um dos temas do Núcleo de Pesquisa : "Desigualdade e Exclusão no Espaço Local" fica evidenciado que não é através de estratégias privatizantes e do "esforço individual" que a qualidade de vida da população brasileira irá melhorar.

O escritor João Cabral de Mello Netto (Nordestino de Recife) afirma em seu poema "Tecendo a Manhã", que o "hoje" é nosso para formarmos uma nova sociedade. Cada um pode fazer a sua parte, contribuindo com o coletivo, através da percepção dos problemas sociais que assolam o Brasil e do engajamento para a resolução destes: "

TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe o grito que ele
e o lance a outro; de um galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo , entre todos os galos.
......................................................"

Ponta Grossa, 30 de outubro de 2000.


 

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