Reflexões sobre Desigualdade, Exclusão e Analfabetismo


Linite Adma de Oliveira - Bolsista PIBIC/UEPG.
Maria Antônia de Souza - Orientadora.


Convencidos de que o distanciamento do indivíduo de uma instituição escolar,
o torna um ser marginalizado, alienado e excluído da participação sócio-econômica-política, optamos por realizar nossa pesquisa, junto ao Núcleo de Pesquisa: "Desigualdade e Exclusão no Espaço Local", enfocando a temática da educação.
O referido Núcleo objetiva discutir, sistematizar e produzir conhecimentos sobre desigualdade e exclusão no espaço local, município de Ponta Grossa, devido o processo de municipalização iniciado no Brasil a partir da Constitui-
ção de 1988. Só através do conhecimento do espaço onde produzimos, moramos, consumimos e vivemos é que podemos alterar a realidade social, onde encontramos pobreza, pessoas analfabetas, pessoas sem moradia, pessoas desempregadas, pessoas passando fome, pessoas sem acesso a atendimento médico.
O Núcleo de Pesquisa, constituído por professores, acadêmicos de graduação e pós graduação e pessoas da comunidade, busca produzir conhecimentos sobre desigualdade e exclusão, nas diversas áreas de conhecimento: saúde, assistência social, habitação, trabalho, repasse de recursos para o município e educação, para uma possível transformação da realidade social local.
Do registro de diversos fatores que contribuíam para o aparecimento de índices de desigualdade e exclusão no Brasil, como políticas públicas que criaram recursos e infraestrutura insuficiente para aumentar a qualidade de vida da população (década de 1960), pagamento de juros da dívida externa (década de 1970), transformada em dívida pública, incapacidade de implementar um processo de crescimento econômico para elevar os índices de distribuição de rendas e das riquezas nacionais, embora na década de 90 Estado e sociedade civil tivessem construído relações democráticas a partir das eleições diretas em todos os níveis
de governo. No ano de 1994 a moeda brasileira foi estabilizada e contribuiu para a não oscilação da inflação que atingia os salários e provocava a instabilidade econômica e social. Porém em 1996 apesar da estabilização monetária ainda persistiam os problemas estruturais do Brasil1.
Como o crescimento econômico era lento e aumentava o desemprego agravando o quadro social do Brasil, solução encontrada foi a reforma do Estado para que houvesse o ajuste orçamentário através dos cortes de despesas da área social, o que contribui para o agravamento da desigualdade e exclusão que se apresentam de forma bastante diversificada , sendo que cada região brasileira : norte, nordeste, centro-oeste, sudeste e sul apresentam características próprias e diferenciadas no que diz respeito a cada estado e a cada município , sobretudo2.
Nos anos 90, parcerias entre entidades governamentais e a sociedade civil foram intensificadas, sendo a educação um dos focos de atenção.Percebido que no Brasil há um número significativo de analfabetos - entre 11% e 16% -conforme dados oficiais e o estado do Paraná de 10,2% de pessoas analfabetas, com idade de 15 anos ou mais, foi na área de Educação que realizamos nossa pesquisa, buscando resposta a questão central: "Qual é o papel da educação na realidade de exclusão e de desigualdade social?"
Foi encontrada a resposta para esta indagação a partir da realização de um levantamento bibliográfico sobre a temática: Exclusão, Desigualdade Social e Educação, seleção de textos para leitura como Durham, Arroyo, Gentili, Mello, Oliveira, Castel, Freire, com o intuito de fundamentar definições dos subtemas acima referidos; debates grupais para a troca de conhecimento das diversas áreas de atuação; leituras de textos de revistas, jornais e textos da Internet; pesquisas de campo e filmes assistidos.

Apresentamos neste texto, os resultados obtidos em forma de definições das temáticas estudadas e alguns dados numéricos obtidos sobre a escolaridade brasileira, paranaense e pontagrossense.

1- Desigualdade e Exclusão:

Ao pensar a palavra exclusão, logo nos vem à mente sua relação com pobreza, ou a posse ou não de riquezas.
Num contexto de globalização, revolução tecnológica e alteração no papel do Estado, que está deixando de lado as garantias sociais, Dupas (1999) afirma que o surgimento de um sentimento de exclusão de um indivíduo, surge a partir da comparação entre o que ele tem em relação aos demais indivíduos, independente da satisfação de suas necessidades básicas.
A exclusão é resultado da relação entre pessoas que tem domínio do sistema de escrita que quando querem ser hegemônicas, elas aproveitam-se daquelas que sabem menos.
Embora as transformações sócio-econômicas atuais apontem a exclusão voltada a valores econômicos, é necessário entendê-la e percebê-la nas mais variadas espécies ou categorias, que nem sempre envolvem o valor material mas o valor social, mais notadamente cultural3:
- Exclusão pela localidade: pessoas que moram na periferia, ou os Sem-Terras.
- Exclusão pela concentração de renda: os pobres são excluídos pela exploração de sua força de trabalho, ele pode trabalhar por dez horas e ser remunerados como se tivesse trabalhado duas horas.
- Exclusão cultural: a raça e valores étnicos dos índios, negros sofrem exclusão de outros povos ditos como raça pura, porque queremos que o outro aceite e se insira na sua cultura.
- Exclusão de gênero: estatísticas ainda mostram que a mulher ainda é discriminada, porque numa visão ainda machista, é apontada para dar carinho ao marido e aos filhos.
- Exclusão pela formalidade: consideramos as pessoas loucas, esquisitas. Tememos o deficiente, porque ele geralmente é pobre e feio e tememos a concorrência deles.
- Exclusão pela religião: acontece quando não aceitamos a crença do outro.
- Exclusão política: todo político é visto pela sociedade como marginal, porque pensa politicamente diferente.
- Exclusão pelos anos de vida: o idoso é excluído porque é considerado como um inútil, que não serve para mais nada a não ser para provocar apenas gastos; a criança é excluída porque não tem nada a oferecer pela sua "imaturidade".
Nas grandes potências mundiais é marcante também a exclusão para com o imigrante. Na França, por exemplo, um estrangeiro só é aceito quando possui mão-de-obra de interesse. A medida que aparece mão de obra dos patriotas que possam substituir este trabalhador, ele é deixado de lado3. Algo semelhante aconteceu no Brasil. Os nordestinos que construíram São Paulo não encontram um espaço para construir suas casas, restando-lhe as favelas ou o retorno para a miserável vida no Nordeste. É o que Nascimento (1995) chama de "apartação social" a desfiliação dos meios de consumo bens, de serviços e do gênero humano.
Robert Castel (1995) aponta a exclusão vinculada à desfiliação, voltada à ruptura do vínculo social decorrente da perda de um emprego. Um trabalhador quando perde seu emprego, ele perde também sua integração com o grupo com o qual convive. Ele perde seus amigos, seu acesso ao clube e deixa de fazer diversas coisas que fazia quando era empregado, porque ele deixou de pertencer àquele grupo, cujos interesses e valores são diferentes daqueles que estão desempregados.
Sabido que a pobreza é a exclusão material que leva à exclusão cultural e social, apontamos que ao longo da história as concepções de pobreza foram diversas. Nos anos 60 estava atrelada a figura do "Jeca Tatu", nas décadas de 70 e 80, à figura do "Hippie", e nas décadas de 90, à figura do "Violento".
Embora dados do relatório apresentado pelo Presidente Fernando Henrique ao Banco Mundial, mostrem que em 1990 o percentual de pobres no Brasil situava-se em 27% da população, 39 milhões de brasileiros, enquanto que em 1989 era de 40,9%, a pobreza no Brasil é grave. O Brasil não é um país pobre, mas um país que possui uma grande parcela da população que não possui renda suficiente para atender suas necessidades básicas, enquanto que um pequena parcela da população concentra a maioria da renda do país4.
Em uma sociedade em que muitos não possuem nada e outros são donos de quase tudo, chamamos de Desigualdade social. Concluímos que é a concentração de renda que torna a maioria dos brasileiros, pobres.
No Brasil a diferença entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres é de 32 vezes. Embora a pobreza possa ser conceituada pelas categorias de rendimentos (renda disponível para adquirir bens para o bem-estar), ativos (considera o rendimento que pode variar no tempo e os ativos produtivos físicos como a propriedade ou os financeiros, ou seja, a capacidade de aquisição dos bens de mercado), opiniões (comparação entre as condições pessoais dos indivíduos com o padrão universal- "pobre é quem se considera" ou "é considerado"), capacidades (disposição de meios para adquirir seus objetivos de bem estar como: condições físicas, capital humano, liberdades políticas, direitos sociais, riqueza), geralmente tem ênfase em nos estudos, o enfoque dos rendimentos e o método da linha de pobreza 5.
A linha de pobreza é definida a partir do custo das necessidades básicas, enquanto que a linha da indigência é calculada conforme as necessidades alimentares, segundo aponta o Relatório final do Congresso Nacional (1999, p.45).
A extrema desigualdade em nossa distribuição de renda faz com que a maior parte da população brasileira 70% viva com renda per capita de apenas R$ 215,00 mensais,enquanto que 10 % dos mais ricos apropriam-se de 47,8% de renda total e os 5% mais ricos de 34,1%6.
O grau de pobreza no Brasil é de 28%, porém fazendo comparação com outros países de renda per capita semelhante (U$ 4.271,00), a proporção de pobres deveria ser de 8%. Os 20% deve-se ao grau de desigualdade na distribuição da renda. (FURTADO,1999,p.42).
Na seqüência faremos uma discussão sobre alfabetização, apontando elementos que contribuem para a análise futura da situação da escolaridade no espaço local.

2- Analfabetismo: uma das facetas da exclusão.

Ao longo da história brasileira, registros foram encontrados no que diz respeito à educação, marcados por índices e preocupantes características de exclusão social: elevados percentuais latino-americano de matrícula no ensino médio (25% da população na faixa de 15 a 17 anos), péssimas condições de trabalho e remuneração na área de educação. Somado a isso, é também historicamente verificável, entre a teoria e a prática a contradição governamental referente às políticas públicas.
Devido as políticas públicas brasileiras obedecerem a matriz definida pelo Banco Mundial, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento(BIRD) e pela CEPAL (Comissão econômica para a América Latina), os países aliados à política Neoliberal vêm limitando as verbas da educação, 6% de seu PIB per capita. Na década de 80 a América Latina destinava 4,5% de seu PIB para a educação, nos anos 90 reduziu para 3,7%.
A globalização da economia e o avanço tecnológico que contribuem para o desemprego ou subemprego, levam a maioria da população a viverem em um mundo de pobreza, indigência e miséria, enquanto que a pequena maioria detém a renda, o poder e o acesso a serviços e benefícios7.
Embora a educação brasileira tenha sofrido grandes alterações no campo institucional: reforma da Constituição através da Emenda 14; aprovação das leis 9394/96 (Lei de Diretrizes e Bases ) e 9424/96 ( Fundo de Manutenção do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério), bem como outros decretos, medidas provisórias, avisos ministeriais e criação de Fundos, sendo uma de suas características a fórmula: arrecadação e matrícula que assegura a cada aluno o investimento de R$25,00 mensais.
Com um PIB (Produto Interno Bruto) de cerca de 750 bilhões de dólares, ou seja, com um PIB per capita de 4000 reais anuais, o Brasil é a 9ª economia mundial, porém está no 69º lugar no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) calculado pela ONU (Organização das Nações Unidas). O país revela que 226.000 crianças morrem antes dos 5 anos de idade e que 18% da população é analfabeta . O tamanho do Estado Brasileiro, com relação ao PIB nacional, é da ordem de 30% para as políticas de reprodução do capital ou para reprodução de força do trabalho. Somente a arrecadação de impostos, excluindo contribuições e taxas, é vinculada constitucionalmente à Educação (18% da União, 25% nos Estados, Distrito Federal e Municípios).
Com a criação do FEF (Fundo de Estabilização Fiscal), cerca de 20% dos recursos que iriam para a União são "capturados" (incluindo da Educação), o que determina um déficit anual de 3,6% dos recursos da educação na esfera da União. A desoneração das exportações (ICMS) traz fortes déficits aos estados e municípios exportadores de Economia.
As práticas endêmicas da sonegação, a inserção fiscal e de renúncia fiscal contribuem em milhões para o não desenvolvimento do país e educação de sua população. Dois terços das cargas tributárias são impostos indiretos, ou seja, aquela que estão na esfera da circulação das mercadorias, atingindo todos os cidadãos e embutidos no preço das mercadorias e serviços. Tanto o pobre que ganha dois salários mínimos quanto o rico que ganha 100 salários mínimos, pagam os mesmos 17% de ICMS sobre o mesmo leite, o mesmo arroz . Esses dados nos fazem refletir que quem mais contribui com os impostos menos acesso tem a educação!
Como viemos refletindo ao longo deste trabalho, a pobreza no Brasil, é decorrente das péssimas condições de habitação, da fome e do não acesso à educação, somados também a diferenças regionais, intensa polarização capital-trabalho, sistema tributário injusto, ampla sonegação fiscal e de contribuições trabalhistas, trabalhadores no sistema informal, sem registro e desempregados, inexistência de instrumento de justiça econômica, salário mínimo abaixo das possibilidades econômicas, forte polarização urbana/rural, diferenças de renda segundo o sexo e a etnia, altos níveis de corrupção no sistema público e privado, sistema de previdência insuficiente.
O Plano Nacional de Educação, obtido no site citado, apresenta como uma das causas do abandono escolar a não existência de uma política educacional que assegure a escolarização de uma criança e de um jovem, para que eles não dependam das condições materiais e econômicas de sua família para prosseguir os estudos. Conforme o mesmo Plano apresenta segundo dados por ele obtido do IBGE, a renda familiar dos estudantes cresce de uma série para outra em um salário mínimo e só aqueles 30% mais privilegiados podem concluir o ensino médio.
O gasto público efetuados pelas três esferas do governo foi de R$ 28 bilhões em 1995, ou 21% dos gastos públicos na área social. Aos estados e municípios 80% e federal 20%. O gasto com o fundamental chegou a 41%, pelo maior número de matrículas, o médio 6% do total. Uma boa parcela dos gastos concentra na educação superior que chega a 18,5% dos gastos gerenciados pela esfera federal. Lembremos que o acesso ao ensino fundamental público é maior quanto menos for a renda domiciliar per capita. No Ensino Médio há o acesso das camadas mais altas de renda no que diz respeito tanto ao ensino público quanto privado. Os mais pobres não vão além do Fundamental.
O ensino superior é quase exclusivamente dos mais ricos. Apenas dois décimos deles tem acesso a Universidade.
É necessário perceber que na sociedade em classes, os privilégios de uns impedem a maioria de usufruir os bens produzidos. Um desses bens é a Educação, da qual grande parte da população dos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos.
Conforme aponta Arroyo (2000), o povo continua sendo excluído da participação cidadã, uma vez que as camadas populares ainda têm pouco acesso e permanência na escola. As instituições educam essas classes para serem servis, passivos. Com o fortalecimento do Estado se evidenciou ainda mais a exclusão dos trabalhadores da política e do sistema capitalista, que põe nas condições materiais e nas relações de produção e nas estruturas de poder, os mecanismos de exclusão e alienação. Mesmo campo onde as classes operárias deveriam por suas lutas pela emancipação política e, humana e social.
O grande desafio da Educação desse novo século será instigar em seus alunos o senso crítico, a emancipação intelectual para que busquem qualidade de vida e não só leiam ou escrevam aquilo que lhes são ditados.
Em Pedagogia do Oprimido, Freire afirma que a educação deveria ser exercida com prática da liberdade. O analfabeto pode ser "educado" ou alfabetizado no sentido amplo da palavra, aprendendo a refletir sobre sua própria realidade, o que iria contribuir para a libertação em detrimento da opressão social. Para Freire (1988) alfabetizar é ensinar o uso da palavra em suas dimensões de ação e reflexão, é transformar o mundo conforme acontece no Filme "O Preço da Liberdade". Um escravo alfabetizado incomoda seus senhores porque pensa, reflete acerca do que acontece consigo e com seus companheiros, incomoda seus companheiros de senzala, porque estes temem o novo, a descoberta, temem ousar a dizer não à opressão e mostrar que também são seres humanos.
Diante desse complexo contexto em que se encontra a Educação, podemos imaginar o dilema de uma pessoa analfabeta. Podemos refletir sobre alguns fatos do nosso dia-a dia.
Imaginemos em Paris, em Londres, no Japão. Sem ter domínio algum do sistema de escrita desses povos citados. E em um ponto de ônibus, de metro pedíssemos informações qual o próximo horário ou qual deles tomar para lá nos deslocarmos e como resposta nos falassem para olharmos as placas. De que nos ajudaria suas sugestões? É exatamente assim que um analfabeto se sente!
Uma pequena história, como esta que será relatada, vivenciamos ou ouvimos ao acaso sem nos darmos conta da gravidade da situação dos analfabetos. Maria entre muitas, conseguiu um emprego de doméstica, depois de muita procura. Pois afinal de contas, ninguém quer um funcionário analfabeto! Dentre diversas atividades que realizava na casa, uma delas era arrumar e limpar a biblioteca da "Dona" que gostava de tudo bem "arrumadinho, organizadinho e limpinho". Nos primeiros dias em que precisou organizar o livro foi difícil, porque ela não sabia quando as letras embaralhadas estavam de ponta cabeça. Depois de muito sofrimento, ela percebeu os números das páginas e destes ela tinha um pouco de conhecimento. Ufa! Maria poderia permanecer no emprego, que lhe daria um pequeno salário. E ela poderia pelo menos não ver mais seus filhos chorarem de fome.
O Filme "Central do Brasil", retrata a sujeição ao engano, à trapaças que as pessoas analfabetas são submetidas.
Arroyo (2000) aponta que a cidadania se constrói como um processo que se dá no interior, pelo saber e pela instrução e só tem sentido na constituição da identidade política do povo comum.
Sendo a educação expressão do processo da democracia, confirma-se a idéia de Gentili (1995) que afirma que a luta pela escola pública se encontra ameaçada pelos discursos neoliberais. O autor defende a educação como direito de todos e critica o seu atendimento aos interesses da minoria detentora do poder, reafirmando a sociedade de proprietários e trabalhadores. Critica o valor de mercadorias que o conhecimento vem tendo, levando a educação rumo a privatização.
Enquanto o indivíduo analfabeto ou com pouca escolaridade valorizar a cultura daqueles que tem condições materiais e financeiras para ingressar na escola e lá permanecer deixando de lado sua história de vida e não indagando-se por que em um país que se diz democrático a grande parte da população nem sequer conclui o ensino fundamental. Sentir-se culpado por ter dificuldade em manusear a máquina do patrão, pode contribuir ainda mais para participar ativamente dos direitos e deveres democráticos. A isso Melo (1997) aponta a reprodução dos discursos dos trabalhadores pelos detentores do poder, para perpetuar a histórica separação de classes, de direitos.

3 - A educação no Espaço Local: descrição e discussão dos dados.

Concordando com Dias (1998) de que o analfabetismo é um entrave aos mais elementares direitos da cidadania, um obstáculo a dignidade, apresentaremos a opinião da professora da USP, Stela Piconez, em artigo publicado na Revista Educação (1998, p.37), referentes ao número de analfabetos considerados pelo IBGE. Na seqüência, descreveremos alguns dos poucos dados da educação no espaço local, obtidos junto ao Núcleo Regional da Educação e Prefeitura Municipal de Ponta Grossa. Lembramos que dados relativos ao analfabetismo não foram obtidos.
Piconez (1998) alerta que o número real de analfabetos no Brasil é maior do que calcula o IBGE e está em torno de 60 milhões, já que deve-se considerar os analfabetos absolutos (aqueles que sabem ler e escrever um bilhete) e os analfabetos funcionais (aqueles que lêem, escrevem, mas não interpretam nem sequer uma bula de remédio ou um manual qualquer de eletrodoméstico). O IBGE apresenta o número de 15,6% da população brasileira como analfabetas, ou 16 milhões de brasileiros.
O analfabetismo no Paraná é de 10,2% ou 675.188 pessoas não alfabetizadas em uma população considerada em 6.647.687 pessoas, conforme dados da PNAD - Paraná de 1999, obtido em 26/03/2001 no site disponível http://www.pr.gov.br/cie/indic/escolar/pes1.
No município de Ponta Grossa existem 42 escolas sob incumbência do estado. Com relação à porcentagem de aprovados, reprovados e desistentes, temos os seguintes dados: no Ensino Fundamental há uma média de 83,5% de aprovados; 8,7% de reprovados e 7,8% de abandono escolar, enquanto que no Ensino Médio há uma média de 78% de aprovação, 9,3% de reprovação e 12,8% de abandono.
Constatamos que as escolas de maior porcentagem de aprovação no Ensino Fundamental são: Escola Estadual Maestro Bento Mossurunga com 98,5% de aprovação, Colégio Estadual Professor Júlio Teodorico com 97,1% de aprovação e Escola Estadual João Maria Cruz com 97,1%. As escolas com maior número de reprovação foram: Instituto Estadual de Educação Professor César P. Martinez com 18,8%; Colégio Estadual Professora Elzira C. de Sá com 16,4% e Colégio Estadual Professor João R. V. Du Vernay com 15,6%. A porcentagem de abandono foram: 27,4% no Colégio Estadual Presidente Kennedy; 17,9% na Escola Estadual Professora Elzira C. de Sá e 17,7% Escola Estadual Dorah G. Daitschman.
No que se refere ao Ensino Médio constatamos que as escolas com maior aprovação são: Colégio Agrícola E. Augusto Ribas com 86,8%; Colégio Estadual Professor João R. V. Du Vernay com 84,8% e o Colégio Estadual Presidente Kennedy com 84,8%. As escolas com maior número de reprovação são: Colégio Estadual José Elias da Rocha com 14,9%; Instituto Educacional Professor César p. Martinez com 13,9% e Colégio Estadual Regente Feijó com 13,3%. As escolas com maior número de abandono são: Escola Estadual Dr. Munhoz da Rocha com 28,6%; Colégio Estadual professora Elzira C. de Sá com 17,7% e Colégio Estadual Santa Maria com 16,8%.
Em relação às 73 escolas municipais de incumbência da Prefeitura Municipal de Ponta Grossa conforme o Levantamento Estatístico Anual - Ano de 2000 que reúne zona rural e urbana, contatamos que o número de matrículas vão caindo conforme a ascensão das séries: 1ª série com 6.281 alunos matriculados; 2ª série com 5.098 matrículas; 3ª série com 4.824 matrículas; a 4ª série com 4.460. A partir da 5ª série a queda de matrículas é assustadora. Para a 5ª série matricularam-se apenas 534 crianças, na 6ª série 448; na 7ª série 332, na 8ª série 203 adolescentes foram matriculados. Na Pré- escolar foram matriculados 3.528 crianças e na Classe Especial 140 alunos. No Supletivo 392 alunos.
De um comparativo das séries do Ensino Fundamental constatamos que a menor porcentagem de aprovação aparece na 1ª série 66,55% enquanto que a 4ª série apresenta a maior porcentagem de aprovação com 85,74%. A menor taxa de reprovação apresenta-se na 8ª série com 3,94%, enquanto que a maior taxa de reprovação aparece na 1ª série com 18,82%, seguida pela 5ª série com 15,36%. A menor porcentagem de transferência é na 4ª série com 9,57% enquanto que a maior porcentagem de transferência é na 5ª série com 17,42%. A menor desistência ocorre na 2ª série com 0,55% enquanto que a maior desistência ocorre na 8ª série com 3,94%.
Diante dos números apresentados percebemos que a 1ª série embora apresente o maior número de matrículas em relação as demais séries é a que apresenta a menor porcentagem de aprovação. Enquanto que a 8ª série apresenta o menor número de matrícula e a maior porcentagem de aprovação.
Se pensarmos acerca dessa realidade podemos nos perguntar: "Onde estariam os alunos que reprovaram ou desistiram, sendo que um pequeno número chegou à 8ª série? "
Em Ponta Grossa há uma preocupação tanto da sociedade civil quanto do poder municipal na organização do projeto de alfabetização, um deles é o MOVA - PG , outro é o desenvolvido pelo Sindicato dos Metalúrgicos, além de cursos ofertados pelo CEEBJA (Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos).

Considerações Finais:

Ao longo de nossa pesquisa deparamos com a complexidade de compreender os objetivos da educação, quando alguns números e pronunciamentos apontam progresso na educação e redução do analfabetismo brasileiro se contradizem com aquilo que vemos no nosso dia-a-dia. Inúmeros analfabetos pedindo informações, pessoas que não conseguem emprego, pessoas que votaram nesse ou naquele candidato em troco de uma sesta básica, excluídas da participação cidadã e da sociedade dita democrática porque simplesmente não dominam o sistema de leitura, escrita e interpretação, ou seja não são alfabetizadas amplamente.
O que poderia explicar a dificuldade de encontrarmos dados acerca de analfabetismo quando sabemos que inúmeros projetos de alfabetização são desenvolvidos, geralmente por entidades não- governamentais?
Em Ponta Grossa no que se refere ao analfabetismo dados concretos não existem, obtivemos um dado de 11 mil analfabetos nessa cidade pelo informativo do programa Integrar do Estado do Paraná, Ponta Grossa- Ano I - nº 0 - Julho de 2001.
Ao concluir esta etapa de nosso trabalho inúmeras indagações permeiam nossa mente, que talvez sejam respondidas quando encerrarmos nossas atividades de campo.
Certos de que a má distribuição de renda em nosso país é um dos fatores determinantes para a exclusão e desigualdade social, observamos que Ponta Grossa não se exclui dessa realidade. Mas como dissemos anteriormente é necessário reconhecer os problemas locais e apresentar a sociedade e aos governantes para que algo de positivo possa ser feito.
À Educação cabe formar os indivíduos capazes de observar seu meio e levá-lo a não se acomodar, pensando que tudo que ocorre é algo do destino. Cada um deverá ser capaz de transformar a sua realidade vencendo os obstáculos que para a maioria pobre da população é árduo.
Tem a escola contribuído para a libertação social ou tem efetivado a separação das classes entre dominados e dominadores? Cabe a escola divulgar a potencialidade e o poder que cada um tem.
Respondendo o seu objetivo é que o Núcleo de Pesquisa buscará dados em pesquisa de campo e os apresentará para que se possa conhecer a realidade pontagrossense que poderá resolver suas carências sociais através de alternativas que o governo federal ou estadual não possa ou não queira dar. Para isso é necessário conhecer a realidade local.

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