Philipovski, Anita

 

Nascida na cidade paranaense de Ponta Grossa, em 1886. Prosadora e poetisa inspirada e talentosa, colaborou nos jornais e revistas literárias do início do século, publicando principalmente em Curitiba. Em momento de maior desencanto com a vida, teria destruído quase que a totalidade de sua obra. Assim, poucos de seus poemas, que se notabilizaram pela poderosa sugestão visual e pela força das imagens, puderam ser resgatados. Foi membro do Centro Cultural Euclides da Cunha (Ponta Grossa). Faleceu na cidade natal, em 1967. Publicação poética: Poentes de minha Terra (1936). (Vera Marilha Florenzano).

Os poentes da minha terra
A Stefan Kujavski
(Stefan, não sei onde te achas atualmente. Mas tenho a esperança de que possas ler estes versos que fiz pensando no teu fino espírito, que tanto aprecia tudo o que de belo nos oferece a natureza!)

Os poentes da minha terra
São belos,
Tão belos,
Mas tão belos
Como nunca ninguém viu fora daqui.
Uns são roxos... outros amarelos...
Outros de bronze com pedrinhas de rubi...
E os cor de opala, então?
Lembram a palheta de algum pintor flamengo
As nuanças leves de um pôr-de-sol assim.
E os de seda cor-de-rosa?
E os poentes de verão?
À s vezes o poente de verão
É todinho borrado de carmim.

Há os de nuvens frágeis, esgarçadas,
Tocadas de luz desfalecente.
E a essas nuvens leves,
E luz desfalecente,
A gente olha e pensa...
Fica pensando que o ocidente sonha
Sonhos de renda, de gaze e nostalgia,
Sonha saudades para magoar a gente.
Patéticos... Uma rima de saudade,
Um verso do poema - nostalgia...
Tonalidades de exótica poesia,
De poesia apenas pressentida
Através do tempo e através do espaço...
Patéticos. Legendários. Quase irreais...
Estes poentes às vezes são assim.
Neles canta, e numa voz que ninguém ouve,
Um noturno...
Canta inaudível a alma de Chopin.

Sentimentais... muito sentimentais,
Estes poentes às vezes são assim.
E às vezes... ah! são exaltados!
De cariz violento. Rubros! De tragédia!
Esbraseados...
São chamas!...
Vede então - o acaso pegou fogo!
Há um grande incêndio onde termina o céu.
E logo mais:
Feitos de chumbo, azinhavre e de zarcão,
Com faíscas medrosas de safira.
E, nesses dias,
Que colorido onde entra o Sol!
Que cores fortes!
E do contraste agressivo dessas tintas,
Furiosas e terríveis,
O Sol se esquiva; o Sol vai fugindo,
O Sol se escapa como quem delira.
Poentes extravagantes!
Poentes indescritíveis!
Até parece que o céu enlouqueceu.

Agora vede:
Negro e de sangue... de tragédia, um dia,
E outro dia,
Um pôr-de-sol suave e dolente,
Que a alma da gente veste de cisma,
E que veste de cisma a alma da gente.
Poentes extravagantes!
Poentes indescritíveis!

Sobre a magia desses coloridos
Expressou-se arrebatado certa vez
Um espírito vibrante de estesia.
Era sem saber que o era - um poeta.
Mas falou:
" Nesta terra é assim:
Quando termina o dia,
U'a mão invisível, misteriosa,
Pinta onde acaba o céu,
E com as tintas que quer,
Pinta tudo o que há de emocionante,
Na essência emocionante da poesia."
Assim expressou-se embevecida, um dia,
uma alma vibrante de estesia.
E o poente de hoje, não vistes?
Foi imponente. Foi egrégio.
O rei dos astros quando foi-se embora
Deixou no céu o lindo manto seu.
Era de púrpura, que eu sei,
Com franjas de ouro, e bordados de ouro,
Mesmo um manto de rei.
Portanto esse presente foi um presente régio.
Afinal Ponta Grossa pode usar,
Como usa, e muitas vezes usa,
Na hora crepuscular,
O ouro e as púrpuras das galas reais.
Porque - quem não sabe da sua nobreza? -
Ela é princesa.
É soberana.
E os seus domínios?
É toda a terra dos Campos Gerais.
E por isso ela tem a regalia
De usar a púrpura das galas reais.

Estes ocasos...
Cada um tem sua beleza peculiar, eu acho.
Os outros... não sei que pensam, nem o que dirão.
Mas para mim o pôr-do-sol mais sugestivo,
E emotivo,
É o pôr-do-sol lilás.
Quando faz fundo para uma paisagem campesina,
É de tão grande beleza,
E de tristeza tal,
Que a impressão que causa, não há quem a defina.

Na lomba da coxilha há um pinheiro isolado,
Forte e dorido na sua solidão.
Altivo. Sobranceiro. Algo de audaz...
O vento embate-o. Ele resiste.
Luta com o elemento hostil, ele sozinho,
Deslembrado na verde imensidão
Do campo sem fim.
Na lomba da coxilha há um pinheiro isolado...
E por detrás,
Muito atrás
Da curva da coxilha,
O céu a agonizar em cor lilás.
Só lilás?
Não. Bem pertinho do horizonte,
Há uns fiapinhos de nuvens enxofradas,
Cloróticas. Agoniadas.
Parecem doentes essas nuvens fininhas.
Isto bem pertinho do horizonte.
O mais é só amaranto. É só lilás.
É tarde. É o fim de um dia que não teve sol.
A gente olha isso tudo, e fica olhando.
Fica cismando em tanta coisa ...
A dor da ausência fica doendo mais.
Um fim de tarde assim,
Como faz sentir!
Como faz pensar!
Faz pensar nas almas incompreendidas,
Esmagadas de incerteza e de pesar,
Essa árvore sozinha, tão sozinha!
E o céu a agonizar clorótico e lilás.
Mais uma nota triste, nesse quadro:
Lá longe há um aterro.
E nesse aterro
Um cavalo sacoleja um cincerro.
A gente olha ainda:
O dia se desfaz
Doente e lilás
O campo é triste!
O pinheiro é triste!
(O cincerro é triste!)
Meu Deus, onde vai parar essa tristeza?
E essa beleza?
Ouvi! Andam soluços soluçando no ar...
A gente olha, e tem vontade de chorar.

Minha terra tem cada poente!
É um dom que igual, nenhuma terra tem.
Muitas vezes ao findar do dia,
Na horinha em que vai baixando o Sol
Entre nuvens leves como véu,
É só ver:
Aperta o coração da gente uma saudade!
Uma saudade diferente... não sei como,
Não é saudade de nada desta vida.
É coisa incompreendida.
Talvez seja a nostalgia indefinida
Que a gente tem do céu.

Poentes da minha terra!
Quando longe de vós, para vós é a minha saudade...
Poentes da minha terra, que fazeis pensar!
Poentes da minha terra, que fazeis sonhar!
Poentes da minha terra, que fazeis chorar!

Referências Bibliográficas:

Folha Rósea. Ponta Grossa; Curitiba.

O Progresso. Ponta Grossa.

Poetisas do Paraná. Curitiba: Imprensa Oficial do Estado, 1959.

Ribas Silveira. Antologia Pontagrossense. Ponta Grossa: [s. n.],1960.

Rodrigo Junior; Plaisant, Alcebíades. Antologia Paranaense. Curitiba: Mundial, 1938.

Santos, Pompília Lopes. Sesquicentenário da Poesia Paranaense – antologia. Governo do Paraná José Richa. Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte, 1985.

Zan, Sérgio Monteiro. Letras Ponta-grossenses - Lembranças de Anita. (IV). In: Uniletras. Universidade Estadual de Ponta Grossa. n. 12. dez. 1990. p. 125-129.

Palavras-chave: Ponta Grossa, cultura, poesia.

(Vera Marilha Florenzano).