Campos Gerais, Ocupação dos

 

A ocupação das terras dos Campos Gerais se iniciou na primeira década do século XVIII. Local propício para o desenvolvimento da pecuária (tendo o seu limite sul no vale do rio Iguaçu e o extremo norte demarcado pelo rio Itararé), os Campos Gerais tornaram-se, então, paragem obrigatória na rota do comércio que levava gado e muares do Rio Grande para o abastecimento de São Paulo e das Minas Gerais. A necessidade de abastecimento colonial tanto impulsionou o mercado interno brasileiro, possibilitando a gradativa integração das economias regionais, como favoreceu, ainda, a ocupação de regiões do interior paranaense. A ligação inter-regional se fazia pelo Caminho do Viamão, que compreendia três rotas, sendo a via mais utilizada denominada Estrada Real, passando pelos campos de Vacaria, de Lages, Campos Gerais e Itararé, chegando a Sorocaba. Motivados por um interesse na exploração do comércio pecuário, os pedidos para concessão de sesmarias nos Campos Gerais atingiram um total superior a 90 até meados do século XVIII. Tais pedidos, porém, não indicavam necessária intenção dos sesmeiros em estabelecer residência fixa na região. Isso se comprova pelo alto índice de absenteísmo dos sesmeiros que, não residindo em suas terras, entregavam a administração aos "fazendeiros". As sesmarias se diferenciavam pela extensão e localização, formando fazendas, sítios e chãos urbanos. O recenseamento de 1772 indicou a existência de 50 grandes fazendas e 125 sítios na região dos Campos Gerais. Foi o gradativo processo de partilha dessas sesmarias, por venda, herança e doação, que contribuiu para a valorização da terra e fixação das populações campeiras. A respeito da origem dos sesmeiros, as diferentes análises existentes permitem concluir que tinham procedência múltipla - São Paulo, Santos, Paranaguá e Curitiba - pertencendo a famílias ricas e poderosas desses locais. As sesmarias eram concedidas pela Coroa portuguesa, através de seus representantes na administração colonial. Impunha-se como condição para a doação que o pretendente comprovasse dispor de cabedais. Sua concessão conferia o direito de uso da terra, reforçando o prestígio e poder das famílias proprietárias e ampliando as distinções sociais. As primeiras sesmarias dos Campos Gerais foram concedidas a vários integrantes da família de Pedro Taques de Almeida: o latifúndio compreendia as áreas dos atuais municípios de Jaguariaíva, Piraí do Sul, Castro e parte de Ponta Grossa. Dos seus beneficiados, membros da sociedade paulista, apenas Inácio Taques de Almeida passou a residir na região.
O BOM NEGÓCIO DA PECUÁRIA - Nas fazendas desenvolveu-se uma economia quase autárquica, voltada ao mesmo tempo para a subsistência e para o comércio de gado. Ali, os trabalhadores se ocupavam de atividades diversas, como a moagem de trigo, a fabricação de laticínios, o artesanato de couro, a criação de pequenos rebanhos de ovelhas, cuja lã era destinada à confecção de cobertores e tecidos grosseiros. Nos sítios também se dedicavam à produção de subsistência, complementando ou substituindo a produção das fazendas. As fazendas dos Campos Gerais estavam, principalmente, voltadas para a economia pecuária, envolvidas com o criatório e a invernagem do gado trazido do sul. Contudo, a ambição pelos possíveis lucros, assim como a menor exigência de capital e mão-de-obra, fez com que a invernagem se sobressaísse àquela atividade de criação. A invernagem consistia na engorda do gado, durante os meses de inverno, em campos alugados. Com sua generalização, passou a ocorrer durante o ano inteiro, ocupando a maior parte das pastagens na região campeira. Essa possibilidade de lucro atraiu novos investimentos, tanto de proprietários locais, quanto de outros profissionais, como médicos, burocratas, clérigos, comerciantes, os quais também financiaram parte da atividade tropeira. O trabalho nas fazendas era realizado pela família proprietária (quando esta ali residia), pelos agregados e, sobretudo, pelos escravos, força de trabalho que incluía negros, índios ou seus mestiços. Os agregados eram homens juridicamente livres e compunham uma camada intermediária entre proprietários e escravos: "...eram camaradas, conforme a denominação que se dava ao seu trabalho de jornaleiros. Residiam em terras da fazenda, em pontos mais distantes da sede, como vigilantes das invernadas mais longínquas; eram feitores, capatazes, capangas, compadres, formando uma rudimentar clientela dos donos de fazenda". (BALHANA, 1969, p.93) Entre os agregados, os chamados "fazendeiros" ocupavam-se das questões administrativas; constituíam uma camada social flutuante e, muitas vezes, tornaram-se arrendatários, ou posseiros de terras vizinhas. A maioria dos serviços da fazenda era executada por escravos. Ocupavam-se das atividades artesanais, havendo escravos oficiais carpinteiros, sapateiros, alfaiates e arrieiros. Do trabalho com o couro resultavam os apetrechos utilizados na lida dos rebanhos, como arreios, aperos, lombilhos, xergas, buçais, cinchas e botas. Outros se dedicavam aos trabalhos domésticos, cuidando da rouparia e da cozinha.
ENTRE ARREIOS, LAÇOS E SELAS - No âmbito dessas propriedades, tinha destaque o trabalho dos escravos domadores e peões campeiros. Em documentos do último quartel do século XVIII, ressalta-se sua função como capatazes nos trabalhos de condução de tropas; o viajante Auguste de Saint-Hilaire, que percorreu a região em 1820, também fez referência a escravos atuando na peonagem. Muitas vezes, o trabalho era conjunto: escravos e camaradas saíam em grupos ao amanhecer, seguindo para as invernadas. Também aos filhos varões cabiam as responsabilidades próprias desse trabalho. Tanto podiam ter ao seu cargo a administração da fazenda, quanto participar dos trabalhos de doma, apartação e rodeio. Acompanhar um grupo de campeiros nessa sua jornada rotineira podia despertar grande entusiasmo, como o demonstrou o inglês Thomas Bigg-Whiter, em 1875: chegando ao sítio onde estavam reunidas 300 mulas bravas, observou ali a distribuição da ração de sal. Os animais, que até então se encontravam dispersos em pequenos grupos, ao serem abertos os sacos de sal e esse distribuído em pequenos montes, empreenderam verdadeira batalha na disputa pelo alimento. Enquanto se dava tal disputa, os escravos observavam os animais em busca de possíveis ferimentos, para então laçar os escolhidos. Após a imobilização dos animais suas feridas eram tratadas com uma solução de mercúrio. "Terminada essa tarefa, fiquei com ligeira noção da natureza das exigências requeridas por uma grande fazenda pastoril. O laço é o elemento principal no trabalho todo e o terror que ele inspira numa tropa de mulas bravas ou de manadas de bois é realmente doloroso de ver". ( BIGG-WITHER,1974,p.376) O laço, ainda, era importante instrumento, útil nas ocasiões de marcar a ferro os animais e apartar as crias. Aos habitantes dos Campos Gerais "...o mundo se lhes apresenta a partir das montarias." Companheiros constantes dos homens, a sela, o laço e o cavalo tornavam a infância dos meninos uma iniciação para as lides da peonagem.
A RUSTICIDADE DOS COSTUMES - O interior da casa de um fazendeiro é um indício de que o trato do gado constituía o centro das atenções da vida na fazenda. Na modesta construção, o espaço das paredes da sala era ocupado por laços, chicotes, esporas, selas cabeçadas, espingardas e garruchas, demonstrando que ali se priorizavam os objetos necessários aos serviços diários. A rusticidade que distinguia aquela vida chegava aos domínios da casa, definindo tanto a simplicidade dos cômodos como os costumes ali vigentes. Quanto à composição da casa da fazenda, Saint-Hilaire(1820) refere que não havia requinte: só viu compridos bancos de madeira ao lado de mesas toscas. O olhar de Bigg-Wither (1875) destacou a falta de refinamento dos hábitos da família Andrade: uma refeição ali partilhada, expressão de hospitalidade à moda local, para os padrões do viajante inglês consistiu numa típica e desagradável recepção, pois terminou com bochechos grosseiros dos homens da casa, enquanto a senhora permanecia em pé, pronta a atender as solicitações do marido e do filho. A vida das mulheres da fazenda era de submissão e obediência, demonstrada pela forma como esposa e filhas solteiras eram tratadas. Para participar das conversas com visitantes, a senhora parecia depender do consentimento do marido; as jovens ficavam reclusas numa das dependências domésticas, sendo esporadicamente chamadas ao convívio com os hóspedes. O costume de "guardar as filhas" somente findaria com a escolha de seus respectivos maridos. Contudo, não se pode inferir das experiências de viagem de Bigg-Wither que tal comportamento estivesse, em 1875, arraigado na região; possivelmente, apenas persistia restrito a localidades mais isoladas e a pequenos grupos. As mudanças de mentalidade já se faziam notar, embora cercadas da tradição conservadora: na casa do senhor Mercer (1875), em um jantar com visitas, esposa e filhas sentaram-se à mesa, "embora fosse evidente que o novo regime não lhes parecia muito cômodo". Podemos supor que nos pequenos pontos urbanos certos costumes estivessem já descaracterizados, desde que se considere a instrução das letras como indicativo de uma possível renovação cultural: ainda que em 1820 a instrução pública fosse "absolutamente inexistente" em Castro, a partir de 1830 a cidade passou a contar com um professor para os meninos, sendo em 1846 ali estabelecida uma escola para meninas. O mundo campeiro tinha suas ocasiões de lazer, que não deixavam de demonstrar uma exaltação à vida de peonagem: para a atividade de castração de touros, na fazenda Morungava, afluíam os vizinhos; vinham acompanhados de suas mulheres e das crianças que, trepados na cerca do curral, assistiam aos ritos da pecuária. A lida com o gado tinha seu divertimento: "galopar pelas vastas campinas, atirar o laço, arrebanhar o gado e levá-lo para um local determinado constituem para os jovens atividades que tornam detestável qualquer trabalho sedentário; e nos momentos em que não estão montados a cavalo, perseguindo as vacas e touros, eles geralmente descansam." (SAINT-HILAIRE, 1978,p.19). O tempo trouxe mudanças à estrutura da casa. Em 1875, uma mesa existente na fazenda Fortaleza podia bem lembrar os tempos baroniais da Inglaterra. Uma lista de compras da fazenda Jaguariaíva incluía tecidos franceses e ingleses, vinho tinto de Lisboa, pratos de louça chinesa, além de calendário para 1870. Os inventários da segunda metade do século XIX referiam cadeiras austríacas, espelhos grandes de sala, uma marquesa e as escarradeiras de louça, colheres e garfos de prata. "Aos vestidos das mulheres, acrescentavam-se as jóias: cordão de cinco medalhas de prata, rosário de ouro com crucifixo,...brincos de pedra". Os inventários também evidenciam a religiosidade da vida oitocentista: "no quarto que servia de oratório um 'nicho pequeno com a imagem do Divino Espírito Santo', imagens do Senhor Crucificado, guarnecido de prata, de 3 palmos; 1 imagem da Senhora do Rosário, dourada, com 2 palmos de altura; 1 de N. S. da Conceição, dourada; 1 de N. S. das Dores." (BALHANA,1969,p.100-102) A devoção da família Taques de Almeida, que tinha Santa Ana como protetora, partia de uma profecia: "quem festejasse a gloriosa santa não teria detrimento em seu crédito nem falência nos bens de fortuna". O cotidiano era permeado pelos ritos cristãos: durante a semana havia rezas e ladainhas e aos domingos missa e celebração dos sacramentos. Foi freqüente a posse de fazendas por ordens religiosas; muitas vinham de doações, como a sesmaria de Itaiacoca, que José de Goes e Moraes doou à Companhia de Jesus, e a sesmaria do Rio Verde, doada aos religiosos de São Bento da Casa de Nossa Senhora do Desterro da Vila de Santos; a fazenda Capão Alto passou à propriedade dos religiosos de Nossa Senhora do Carmo, de São Paulo, em 1751. Os carmelitas ampliaram seus domínios, adquirindo as fazendas do Fundão, Cunhaporanga e Vassoural. Esses religiosos e os jesuítas, além de se incumbirem da administração das terras, prestavam atendimento religioso à população fixa ou flutuante da região. Muitas vezes o trabalho e a religião aproximavam senhores e escravos e assim se conferia uma aparente harmonia à vida na fazenda: negros, índios e brancos assistiam às cerimônias de culto divino, tempo de convivência, ainda que ocupassem espaços separados no interior das igrejas. Essa comunhão aponta não só uma suposta unidade cultural religiosa, mas um aspecto paternalista de convívio, ressaltando uma imagem de identidade do senhor com os seus escravos. Nos dias de festejos e cerimônias religiosas abriam-se as portas da casa senhorial aos escravos. Nas Congadas, o séquito do Rei Congo era recepcionado com doces e amável acolhida, cantando e dançando para agradecer às honras da casa.
MÚLTIPLAS FACES DO CONVÍVIO - As ocasiões da vida religiosa ressaltam uma das formas de controle social a que eram submetidos os escravos. Uma disciplinarização mais rígida também vigorou nas fazendas, algumas vezes atingindo a crueldade. O feitor, símbolo de autoridade e respeito, na Fazenda Fortaleza, todas as manhãs, recebia o cumprimento dos escravos, os quais vinham tomar a benção ao seu senhor. A transgressão das normas, o desrespeito e a indolência no trabalho resultavam em punições. O pelourinho, que servia para o açoitamento, teve ali seus dias de uso regular. Também o Código de Posturas da Vila de Castro, em 1830, atribuía pena severa ao escravo que portasse armas de fogo ou facas pontiagudas: receberia o castigo de 25 açoites em público. As restrições impostas ao batuque dos negros, nas vésperas e nos dias santos, tinham sentido regulador, pois impediam o ajuntamento de escravos e outros. Contudo, destacava-se a multiplicidade de experiências da escravidão. Os negros tanto podiam ser açoitados quanto se ocuparem da manutenção da ordem, assumir responsabilidades administrativas da fazenda, ou, reagindo a isso tudo, buscar a autodeterminação de seu destino. Assim, um feitor negro ou pardo não era uma contradição com a natureza do regime escravo. Outros chegavam a ocupar a chefia da fazenda, quando o proprietário, na contingência de se afastar, não tinha parentes a quem delegar essa função. O caso-limite dessa circunstância ocorreu na fazenda Capão Alto, pois os Carmelitas, ao se retirarem do Paraná, em 1770, deixaram-na sob as ordens de seus escravos. Esses passaram a uma situação de "trabalhadores livres" e autônomos, vivendo em comunidade, consumindo o produto de seu próprio trabalho. Inspirados em sua religiosidade, passaram a seguir como chefe supremo a Santa, "a quem ouviam e de quem recebiam todas as manhãs com a benção as ordens do dia" (GAZETA PARANAENSE,30/9/1886, p.1). Isso perdurou por quase um século, até que a propriedade fosse arrendada a uma firma paulista. Em 1864, quando deveriam seguir como cativos aos cafezais paulistas, os negros se declararam cidadãos livres, recusando-se a obedecer. A insurreição terminou com a fazenda cercada, a prisão de seus líderes em cadeias de Castro e Curitiba, retornando os demais à condição efetiva de escravos.
O CONTATO COM O INDÍGENA - A sobrevivência dessa sociedade colonial, tendo base na mão-de-obra escrava, tanto exigiu a incorporação das terras, como forçou a reorganização das sociedades indígenas. Desde o início da expansão e da ocupação do território dos Campos Gerais, no século XVIII, e dos campos de Guarapuava e de Palmas, na primeira metade do século XIX, o trabalho escravo foi um dos destinos dados aos índios aprisionados. Os primeiros registros do contato entre indígenas e criadores de gado nos Campos Gerais datam de 1760. Mas já em período anterior, antes de sua expulsão da colônia portuguesa, os jesuítas haviam construído uma igreja no lugar que então tomou o nome de Igreja Velha, próximo ao Guartelá. Pode-se supor que pretendessem ali realizar a catequização dos índios Coroados, que viviam nos arredores. Os contatos entre grupos colonizadores e os indígenas da região, predominantemente Tupis, foram, com freqüência, conflituosos. Nas expedições realizadas por Afonso Botelho, quando esse chegou a explorar os campos de Guarapuava, tanto entrou em luta com os índios, em 1771, como tentou estabelecer o seu aldeamento, em 1773. O propósito de expansão interiorana da sociedade colonial prescrevia a expulsão dos índios, obrigando suas comunidades a se retirarem para regiões mais afastadas. "A expansão territorial... sempre significou ... a 'desapropriação' dos aborígenes, colocando-os automaticamente no 'mercado' de escravos...".(IANNI,1962,p.81) Foram constantes as expedições de grupos bem armados, os quais faziam uso de pólvora e de chumbo para afugentar, matar, ou então aprisionar os índios para o trabalho escravo nas fazendas. Saint-Hilaire, com sua visão européia, que valorizava a vida civilizada e incluía preconceitos e moralismo, captou bem o impasse da colonização. As situações de contato desses dois mundos, o "civilizado" e aquele dos então chamados "selvagens", já indicava uma convivência pouco pacífica: "A guerra que se fazia a eles quando por lá passei tornava cada dia mais difícil uma aproximação. Os índios esquecem tudo, menos as ofensas, e mesmo que se desejasse sinceramente viver em paz com eles seria muito difícil fazê-los compreender isso..."(SAINT-HILAIRE,1978,p.48).
IMAGENS DO GENTIO - O fato é que a visão de mundo da sociedade colonial dificilmente dava chances à compreensão da diversidade cultural desses povos indígenas. Da parte de missionários religiosos, davam-se as tentativas de catequização dos "selvagens", que nada mais eram do que propostas de os "civilizar", por meio da sua cristianização. G.W. Freireyss, que percorreu a região das Minas Gerais no início do século XIX, apontou como dificuldade para alcançar esse objetivo o modo como os portugueses procediam para com os índios, tratando-os como animais, o que contribuía para a desconfiança recíproca. E, nos Campos Gerais, tanto exploradores quanto missionários partilhavam a mesma visão, tendo o índio tal como fera. Essa circunstância deixava a ele poucas alternativas. Ou ele fugia, retirando-se para regiões mais longínquas, ou enfrentava dois destinos, ambos pretensamente "civilizadores": nos aldeamentos, impunha-se-lhe a cristianização, em detrimento de suas crenças e valores; nas fazendas, submetiam-no a um regime de trabalho escravo, de ritmo e rigidez por ele antes desconhecidos. Mesmo na condição de dominado, o gentio da terra não abandonava de todo seus hábitos e suas concepções de mundo. Quando convertido, não necessariamente perdia suas tradições culturais. Os valores cristãos acabavam por se sobrepor, o que fez, em um aldeamento de coroados "mansos", coexistirem os valores cristãos com o costume índio de , nos meses de Maio, Junho e Julho, eles voltarem às florestas, alimentando-se ali com o fruto dos próprios pinheiros e com o que conseguiam matar, fazendo uso de seus arcos e flechas. Outros procuraram romper os novos vínculos fugindo, não medindo esforços para retornar aos seus antigos lares. Tal ocorreu com um índio Coroado. Esse, desde a infância convivendo com o mundo da Igreja e se preparando para o sacerdócio, depois de ordenado voltou à comunidade indígena para converter os seus patrícios: "....Durante muitos anos, cumpriu ele aí o seu dever para grande satisfação da igreja, quando, repentinamente, acordou-se nele a vontade de mudar a sua vida de padre para a que ele tinha levado em criança. Despiu a sotaina, deixou o hábito de Cristo e tudo o mais e fugiu em procura dos seus patrícios nus, entre os quais começou a viver como eles, casou com várias mulheres e até hoje ainda não se arrependeu da mudança." (FREIREYSS,1982,p.98) À medida que o mundo da fazenda se expandia, em detrimento das terras dos silvícolas, os relatos sobre as "correrias de selvagens" se tornavam freqüentes, destacando os assaltos às fazendas e aos sítios locais. O índio, em sua necessidade de proteção, partia para a guerra defensiva, chegando aos olhos do branco por uma imagem de selvagem agressivo e indomável. O assalto à fazenda Monte Negro, ainda em 1768,ficou registrado como ocasião de mortes, roubo de ferramentas e roupas , efetivada por índios agressores. Esses episódios serviram de justificativa para as represálias empreendidas, as quais consistiam na organização de expedições de caçada ao gentio, para seu apresamento. Quando eram instaladas novas fazendas, seus moradores buscavam proteção usando barreiras ou cercados com estacas, a fim de impedir os ataques dos ameaçadores vizinhos. A fazenda Fortaleza possuía seus muros de barro que, segundo Bigg-Wither, por muito tempo vinham resistindo aos ataques de índios. Essa fazenda pertencia a José Felix da Silva, que passava por ser um dos homens mais ricos da Província de São Paulo; fora estabelecida no início do século XIX, tornando-se o forte de proteção dos colonos das proximidades e permitindo que novos moradores se estabelecessem nos arredores. Os índios freqüentemente a invadiam, mas eram perseguidos e mortos pelos homens do coronel e suas mulheres e crianças aprisionadas. Os escravos da fazenda jamais seguiam ao trabalho sem estarem armados. A Carta Régia de 5 de Novembro de 1808, uma verdadeira declaração de guerra aos índios dos campos paranaenses, permitiu o reforço das expedições contra os "bugres", ao ordenar a organização de milícias de moradores locais, com intenção punitiva, legitimando a escravização dos prisioneiros de guerra. Por toda a Província corriam histórias como essas, revelando-se não apenas uma colonização feita com atos de bravura e demonstrações civilizadoras, mas um cotidiano repleto de situações que despertavam o temor daquela gente. Isto, mesmo entre os experientes tropeiros. Os conhecidos confrontos os mantinham atentos, quando percorriam os caminhos e trilhas da região: "...Nos primeiros dias do comércio de mulas, não só tinham os comerciantes de vencer as dificuldades comuns inseparáveis dessas longas caminhadas através de uma região inculta, mas também estavam sujeitos a ser atacados a qualquer momento por grupos isolados de índios selvagens, contra quem tinham de defender não só a propriedade dos animais como a própria vida..." (BIGG-WITHER,1974,p.363).
A AVENTURA DO TROPEIRISMO - As comitivas de tropas que percorriam os caminhos em direção à feira de Sorocaba conduziam o gado criado nos Campos Gerais e nos campos de Guarapuava e os muares provenientes do chamado continente de São Pedro. Além dos objetos necessários para a viagem, carregavam as mercadorias destinadas às fazendas. A tropa era o grupo de animais, dezenas a centenas deles, e o conjunto humano composto do tropeiro, dos camaradas e do cozinheiro, podendo incluir o arrieiro e, por vezes, ser acompanhada por mulheres e crianças. Os camaradas eram o grupo de auxiliares do tropeiro também conhecidos pela denominação de tocador ou tangedor. O tropeiro tanto podia ser o patrão, o dono da tropa, que transportava e negociava seu rebanho, quanto o simples condutor, intermediário que se encarregava do negócio. O tropeiro levava uma vida de aventuras, que lhe exigia desprendimento e disposição para enfrentar os percalços e riscos da jornada. O péssimo estado de conservação dos caminhos, os ataques dos índios, a perda de animais, problemas rotineiros das viagens, eram compensados pelos altos lucros obtidos neste comércio. Esses "eram investidos em novas propriedades, colocados em firmas ou casas bancárias, a fim de se obterem novos rendimentos". (LAVALLE,1974,p.76) Conceder empréstimos a tropeiros ou moradores locais também foi um dos recursos viabilizados pelos grandes comerciantes de gado dos Campos Gerais para a expansão do seu capital. As despesas de viagem ficavam reduzidas quando os tropeiros possuíam escravos como ajudantes, e também porque estavam habituados a uma alimentação simples e pouco dispendiam no pouso. O número de mulas registradas na feira de Sorocaba entre 1855 e 1860 (100.000 mulas por ano) é indicativo do vultuoso negócio do tropeirismo, que então atingia sua fase áurea. Durante a famosa feira, o comércio e a barganha tomavam conta de Sorocaba. Ali se reuniam mineiros, baianos, fluminenses, paulistas, paranaenses, riograndenses e argentinos. "O amor ao luxo e aos prazeres domina, e dominará por muito tempo, esses indivíduos rústicos, que ajaezam suas cavalgaduras de ricos arreios onde se destacam metais preciosos, ou que timbram em gastar fortunas nos cabarés, no jogo, nos teatros, de sorte que Sorocaba vive mais intensamente, por esse lado, nos tempos de feira, do que muita capital de província." (HOLANDA,1981,p.363) O prestígio econômico e social do fazendeiro-tropeiro acabava por lhe abrir as portas da política. Muitos homens vinculados àquela atividade ocuparam cargos nos governos paulista e paranaense. Muitos deles consumiram parte de seus lucros enviando seus filhos para estudos nos grandes centros coloniais e na Europa.
O CAMPO E A CIDADE - Ligadas ao tropeirismo, ainda no século XVIII pequenas povoações começaram a surgir ao longo do Caminho das Tropas. Nos locais em que as tropas fixavam pouso, fazendo seus pequenos ranchos para descanso, trato e engorda do rebanho, ou esperando passar as chuvas e baixar o nível dos rios, logo surgia um ou outro morador, fundando casa de comércio, interessado em atender as necessidades dos tropeiros. Dessa forma, pequenas freguesias e vilas, como o Príncipe(Lapa), Palmeira, Ponta Grossa, Piraí do Sul, Castro e Jaguariaíva, tiveram seu desenvolvimento inicial dependente das fazendas e do movimento das tropas. "Os cidadãos moram nas estâncias de criar, pelo que as suas casas da cidade só se abrem aos domingos, dias santos ou de festa, tempo em que concorrem e fazem-na regorgitar." (COELHO,1860,p.75) Esse predomínio da vida rural induziu o viajante Saint-Hilaire(1820) a referir a população de Castro como composta apenas de três ou quatro comerciantes, prostitutas e alguns artesãos. Dentre esses, predominavam os seleiros, o que compõe um indicativo de que os homens passavam "a maior parte do tempo em cima de um cavalo". (SAINT-HILAIRE, p.53) Outra evidência do predomínio do campo surge de uma controvérsia acerca da construção da igreja matriz de Castro. Tal episódio opôs, em 1801, o vigário e a Câmara local, representante dos interesses dos fazendeiros abonados; esses se uniram, revoltados com o tributo religioso imposto para tal construção. Demonstravam não um descaso com a religião, mas a supremacia da fazenda que, além de unidade produtora, naquela época era o espaço de destaque para o convívio social, tendo sua própria capela onde os fiéis buscavam o conforto espiritual. Foi ao longo do século XIX que as vilas adquiriram uma conformação urbana, deixando de ser um complemento da vida rural. Tornaram-se centro de resolução de questões políticas e pólo de atração de populações, inclusive das fazendas. Diversificaram-se ali as atividades econômicas, conferindo-se-lhe uma dinâmica própria. Essa realidade emergente propiciou um novo ordenamento do convívio, com com a instauração da Justiça e a elaboração de Códigos de Posturas, regulando o cotidiano do cidadão. Sendo assim, as últimas décadas do século XIX foram marcadas pela contraposição entre a consolidação dos núcleos urbanos e a retração da economia rural nos Campos Gerais. ( Carmencita de Holleben Mello Ditzel; Roberto Edgar Lamb )

Referências Bibliográficas:
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